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Aprendizagem baseada em problema no curso de medicina - por Hissachi Tsuji

10/02/2010

 

Artigo

 
Aprendizagem baseada em problema no curso de medicina
Por Hissachi Tsuji

Na área da educação médica temos vários desafios a serem vencidos: rápida reciclagem dos conhecimentos científicos (40 a 50% dos conhecimentos são abandonados ou colocados em dúvida em 4 a 5 anos), o que obriga o médico a continuar se atualizando sempre; somente 5 a 6% dos trabalhos científicos publicados em milhares de periódicos ao redor do mundo são de boa qualidade (preparar o estudante para selecionar joio do trigo); inclusão ou não, no currículo, de mais de 50 especialidades registrados no Conselho Federal de Medicina (seis anos de curso médico seriam suficientes?); formação de médico generalista que cuida integralmente do ser humano, crítico, reflexivo e outras características referidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais.

A pedagogia tradicional adotada na maioria das escolas médicas é adequada para equacionar os desafios apontados?

As repercussões da pedagogia tradicional em nível individual são: hábito de tomar notas e memorizar; passividade do estudante e falta de atitude crítica; profundo "respeito" quanto às fontes de informação, sejam elas professores ou textos; distância entre teoria e prática; tendência ao racionalismo radical; preferência pela especulação teórica e falta de "problematização" da realidade. O estudante educado na pedagogia tradicional tende a ser um profissional autoritário e individualista como foram os seus professores. Repete o modelo da relação professor/estudante na vida profissional. Não é este o perfil do médico que a população deseja.

O que fazer em termos educacionais para enfrentar os desafios apontados? A mudança curricular é uma das estratégias.

Além da pedagogia tradicional temos outras correntes pedagógicas. Dentre elas destacamos a pedagogia renovada e da problematização. Essas correntes, embora admitam divergências, assumem um mesmo princípio norteador de valorização do indivíduo como ser livre, ativo e social. O centro da atividade escolar não é o professor, nem os conteúdos disciplinares, mas sim o estudante, como ser ativo e curioso. O mais importante não é o ensino, mas o processo de aprendizagem. Trata-se de "aprender a aprender", ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber do que o saber propriamente dito. O professor facilita o desenvolvimento livre e espontâneo do indivíduo, o processo de busca pelo conhecimento, que deve partir do estudante. Cabe ao professor organizar e coordenar as situações de aprendizagem, adaptando suas ações às características individuais dos estudantes, para desenvolver capacidades e habilidades intelectuais de cada um. O professor estimula ao máximo a motivação dos estudantes, despertando neles a busca pelo conhecimento, o alcance das metas pessoais, metas de aprendizagem e desenvolvimento de competências e habilidades.

Na pedagogia da problematização, a educação é uma atividade em que professores e estudantes são mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem o conteúdo da aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa realidade, a fim de nela atuarem, possibilitando a transformação social. Nessa pedagogia, o processo de ensino/aprendizagem é realizado na forma de trabalho educativo, através dos grupos de discussão. O professor está ao mesmo nível de importância em relação aos estudantes, visto que seu papel é ativar, facilitar, motivar a discussão. Dessa forma, o processo de ensino se baseia na relação dialógica entre os atores da aprendizagem, tanto estudantes quanto professor. Aprender é um ato de conhecimento da realidade concreta, isto é, da situação real vivida pelo educando, que se dá através de uma aproximação crítica dessa realidade. O que é aprendido não decorre da imposição ou memorização, mas do nível crítico de conhecimento ao qual se chega pelo processo de compreensão, reflexão e crítica.

As repercussões da pedagogia renovada e da problematização em nível individual são: estudante ativo, observando, formulando perguntas, expressando percepções e opiniões; estudante motivado pela percepção de problemas reais, cuja solução se converte em reforço; aprendizagem ligada a aspectos significativos da realidade; desenvolvimento das habilidades intelectuais de observação, análise, avaliação, compreensão, extrapolação etc; intercâmbio e cooperação com os demais membros do grupo; superação de conflitos como integrante natural da aprendizagem grupal. Na pedagogia renovada e da problematização, o professor e estudante trabalham juntos na sala de aula ou fora dela; a criatividade e a capacidade de reflexão são os objetivos principais do processo de ensino/aprendizagem.

A implementação da pedagogia renovada e da problematização pode ser realizada por meio da Aprendizagem Baseada em Problema (ABP). O problema (P) pode ser construído pelos professores ou preparado a partir de situações que o estudante vivencia no cenário de prática. Não há dúvida que esse é o melhor caminho. Cada problema construído ou preparado faz-se acompanhar de um guia para orientar o professor na sessão de tutoria. São indicações que permitem articular as ciências básicas com as clínicas e demais áreas do existir humano, isto é, o psicossocial.

Outro aspecto importante é o cumprimento dos passos da sessão de tutoria para que produza os benefícios desejados no processo de construção de conhecimentos. Naturalmente a comunidade acadêmica precisa estar consciente das mudanças necessárias, conhecer os fundamentos pedagógicos que dão sustentação à ABP. Para tanto, os professores e estudantes precisam ser capacitados quanto às mudanças praticadas. A capacitação dos professores se realiza de duas formas: educação continuada e permanente. Outra etapa importante é o processo de avaliação. Temos a avaliação formativa e somativa, sendo os resultados expressos em critérios e não em notas (de 0 a 10,00). O exercício de avaliação é seguido de momento de discussão das questões com os professores. Os estudantes terão a oportunidade de dialogar com os professores quanto aos acertos e erros. Aqueles que forem avaliados como insatisfatórios em alguma questão receberão prescrição individualizada e plano de recuperação. Além do primeiro exercício de avaliação, os estudantes terão mais duas oportunidades de recuperação. Portanto, o exercício de avaliação não é momento de acerto de contas entre professores e estudantes, mas um momento privilegiado de aprendizagem.

Não temos dúvidas de que assim procedendo estamos caminhando na direção certa na formação de profissionais de saúde preconizadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN). Para finalizar, lembremos o que disse Lao Tsé (600 – 300 a.C): “aquilo que ouço, esqueço; aquilo que vejo, lembro e aquilo que faço, entendo”. Na atualidade, a neurociência dá sustentação ao que disse o filósofo chinês.

Hissachi Tsuji é professor da Faculdade de Medicina de Marília (Famema). Contato: htsuji@famema.br.




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