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Por que a educação virou um negócio - por João Malheiro

20/06/2010

 

Por que a educação virou um negócio

 

Publicado em 20/06/2010 | João Malheiro

A formação do ser humano foi suplantada pela formação do "ter" e pelo mostrar que se tem. A felicidade ansiada foi também substituída pela depressão, vazio existencial e egoísmo solitário

É com tristeza que recebemos, cada vez com maior frequência, a notícia do encerramento de mais um colégio, dito tradicional, nas principais capitais do país. Nos últimos anos, várias instituições de ensino, sofrendo economicamente com a diminuição da demanda, são forçadas a fechar suas portas, quase sempre após uma longa agonia. Motivos para isso não faltam: perda da qualidade do ensino devido ao inevitável envelhecimento e saída de seus diretores, coordenadores e professores fundadores, em geral idealistas e de melhor qualidade; descuido na seleção e formação de novos professores; desorientação na missão da escola, deixando de lado o foco em seus princípios educacionais; visão distorcida por parte das famílias acerca do papel da escola; pressões materialistas destruindo os verdadeiros valores humanos; taxas de natalidade muito baixas; concorrência de outras instituições; e falta de atualização curricular, pedagógica e de avaliação.

Como educador, porém, confesso que sinto muito mais desgosto e autêntica indignação quando observo organizações educativas, muitas delas com "aura de santidade", ser impregnadas por finalidades apenas mercantilistas ou ser envenenadas por ideologias que, comprovadamente, seduzem para o mal ou deformam as consciências. Mas quem tem a culpa dessas deformações: a escola ou as famílias?

A resposta mais correta me parece ser: nenhuma das duas, e sim o mau uso da liberdade individual de cada pessoa que constitui cada escola e cada família. O homem encontra algumas forças que o conduzem à plenitude do seu ser e outras que o desviam. O mesmo ocorre com os valores que encontra no ambiente em que vive. Muitas vezes, sentirá dúvidas sobre se determinada atitude o conduzirá a essa realização. Em outras, perceberá, através da própria frustração ou remorso, que errou. Em ambas as situações, portanto, deverá buscar honestamente a verdade em fontes seguras e sentir-se responsável por formar corretamente a própria consciência.

Na maioria das vezes, as pessoas mais velhas não são conscientes de que alimentam comportamentos éticos (ou antiéticos) dos mais novos. O modus vivendi de um pai, de um professor, de um chefe é o que formará ou deformará a consciência dos seus pupilos e subordinados. É por isso que a comunidade de indivíduos é co-responsável pela manutenção do seu ethos, pela sua queda ou pelo seu crescimento. Essa corresponsabilidade parte da moral do indivíduo, que influencia a da família, e em seguida a dos grupos sociais mais afastados: escola e local de trabalho, até alcançar a cultura como um todo. Se visualizarmos esse processo como uma dinâmica circular, deduziremos que pode ser um movimento circular ascendente - quando todos individualmente estão buscando honestamente a verdade, enriquecendo o ethos - como também descendente - quando todos, por ignorância ou por malícia, a desprezam.

Sou da opinião de que aquilo que provoca o "terremoto educacional" de nossas escolas é um autêntico movimento circular descendente do ethos em que vivemos. Se fizermos um rastreamento histórico, como já foi feito pelo filósofo MacIntyre em sua obra After Virtue (Depois da Virtude), detectaremos que em poucos momentos da história se chegou a tanta desordem moral. Segundo o autor, a sociedade, ao desprezar a busca pela verdade, acreditando que é impossível recorrer a razões objetivas para justificar princípios éticos universais, caiu no emotivismo, que é instituir o reinado do irracional, do material, do hedonismo. A educação tornou-se, consequentemente, um espaço não tanto para desenvolver as potencialidades racionais, volitivas e afetivas, que facilitem o pleno desenvolvimento do ser humano, mas um meio para galgar patamares sociais cada vez mais altos e lucrativos. Pressionados por essa mentira, numa verdadeira espiral para baixo, pais, professores e alunos começaram a buscar nos centros de ensino somente aquilo que lhes proporcionasse esses objetivos: apenas uma boa formação acadêmica, que lhes desse uma oportunidade de trabalho interessante para depois poder alcançar o máximo prazer possível com o mínimo esforço.

Obviamente, dentro dos próprios mecanismos de mercado, as escolas que possuíam a missão de formar integralmente a pessoa humana começaram a ser desprestigiadas. Por outro lado, as que começavam a dar bons "retornos econômicos" eram reconhecidas como as melhores. Os donos de escola, envolvidos e arrastados também nessa corrente circular cobiçosa, aos poucos foram esquecendo o papel do verdadeiro educador e se deixaram seduzir pelo negócio que dá mais dinheiro.

A pergunta que os leitores devem estar se fazendo é a seguinte: é possível transformar a escola num bom negócio, e ao mesmo tempo cumprir sua missão? A resposta dependerá, como dizíamos anteriormente, de cada cidadão sentir-se corresponsável pelo bem comum. Para isso, acredito que nós educadores, e todos os transformadores sociais que também influem muito diretamente no nível alto do ethos social, têm um papel dobrado de contribuir para que o movimento circular deixe de ser descendente e volte a ascender, pois somos nós que semeamos bondade, beleza, verdade e liberdade em todos os que nos escutam.

João Malheiro, doutor em Educação pela UFRJ, e-mail: malheiro.com@gmail.com BLOG: escoladesagres.org

 

 

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