Logo Escolas Médicas

Artigos & Matérias

Ensino médico: uma importante questão - Prof. Gilberto Perez Cardoso

06/07/2010

Ensino médico: uma importante questão Quando se fala da formação do médico, aborda-se um extenso período, que engloba graduação e pós-graduação. Pós-graduação em medicina pode ser lato sensu (residência médica) e stricto sensu (mestrado e doutorado). Mas é a graduação o segmento mais nevrálgico de toda essa cadeia, pois é nesse período que vão se fixar as bases que permitirão ao futuro profissional ter sucesso na carreira. Os currículos dos cursos de graduação em medicina sofreram grandes transformações nos últimos anos, no mundo e no Brasil. Nos anos 60 e 70 do século passado a grade curricular dos cursos de medicina fragmentava-se em setores e especialidades, não só no chamado ciclo básico, como no intermediário/profissional e também no internato. Isso mudou e hoje o ensino de graduação em medicina – seja no ciclo básico, no intermediário/profissional ou no internato – tende a privilegiar o ensino generalista. Atualmente a maioria das escolas médicas no Brasil adotou (ou está em vias de adotar) um modelo que privilegia a filosofia generalista, em todas as suas etapas. Para mim esse modelo é lógico, mas pode ter dificuldades de funcionar por questões logísticas ou mesmo por falta de docentes adequados para fazê-lo atingir seus objetivos. Não é minha intenção, contudo, discutir aqui e agora qual modelo é o melhor. O que peço é uma reflexão relativamente aos recursos humanos que estão sendo formados para ensinar medicina no modelo atual de nossos cursos de graduação. Os recursos humanos formados para o ensino da medicina são provenientes da pós-graduação stricto sensu, uma vez que os que nela ingressam já concluíram, habitualmente, a lato sensu (a residência médica). Com as atuais exigências do Ministério da Educação, dificilmente uma escola médica com bom padrão admitirá em seus quadros docentes professores de medicina com titulação abaixo do mestrado e já portadores de certificado de residência médica na área; no futuro exigir-se-á o doutorado, em grande escala. Na maior parte das escolas médicas públicas os concursos para preenchimento de vagas de docentes são abertos já com exigência de doutorado para os candidatos. Como isso pode influenciar o ensino médico? A pós-graduação stricto sensu em medicina mudou muito nos últimos 10 anos. Hoje ela nada se parece com a pós-graduação stricto sensu do passado, que era feita valorizando igualmente cursos didático-pedagógicos de formação docente, aprofundamento de conhecimentos na especialidade médica escolhida e pesquisa científica (a tese defendida), sendo esta última apenas mais um dos aspectos considerados. Pecava-se pela não publicação da tese, frequentemente. A pós-graduação em medicina atual nada tem a ver com as especialidades médicas. Ela é cursada numa linha de pesquisa. Não se exige mais do candidato, em geral, aprofundamento nos conteúdos de uma especialidade médica, nem cursos de formação docente. A tese assumiu enorme importância e, mais do que ela, sua publicação em forma de artigo, de preferência em revista de circulação internacional e com fator de impacto. Tais revistas objetivam a difusão de conhecimento novo e altamente especializado, muitas vezes só inteligível para “pares”, ou seja, pesquisadores especializados que estejam investigando assuntos semelhantes. Não são revistas acessíveis ao médico prático. A pós-graduação stricto sensu atual implica em superespecialização e no domínio de atividades laboratoriais e de bancada. Para clínicos, cirurgiões e médicos de especialidades correlatas tal ambiente não é habitual, acostumados que estão a enfermarias, ambulatórios, centros cirúrgicos e outros setores onde a atividade principal é a assistência. Os cursos de pós-graduação assim estruturados são cursos focados quase que exclusivamente na pesquisa. A pósgraduação stricto sensu e norteia no fato de que repassar conhecimento é muito importante, mas produzir conhecimento parece mais ainda e, sem dúvida, leva o profissional a outro patamar. Em decorrência disso, aberta a vaga em concurso para docente, apresentam-se os candidatos e, normalmente, todos possuem doutorado e, não raro, alguns (às vezes, muitos) artigos científicos de razoável valor publicados em revistas de circulação internacional, em inglês, com fator de impacto. É fundamental, por isso mesmo, para reflexão, perguntar-se o que vai fazer o docente contratado, onde vai atuar. Com tal modelo curricular de graduação, se ele for atuar na pós-graduação stricto sensu, como pesquisador, ou em algum setor ultraespecializado de sua especialidade, tudo bem. Mas, e se a escola médica estiver precisando dele para ensinar exame clínico para os terceiranistas? Ou como preceptor para internato generalista? Ou ainda como cirurgião-instrutor na residência em Cirurgia Geral, por exemplo? Será que o candidato com tais credenciais atende às necessidades da escola médica e dos alunos? A admissão de superespecialistas com abundante produção científica tem enriquecido as universidades no aspecto “pesquisa” e no atendimento do ensino ultraespecializado das disciplinas correlatas, especializadas. Não há evidências, entretanto, de adequação ou de benefícios substanciais trazidos por profissional com tal perfil para o ensino de atividades e conteúdos básicos e indispensáveis da graduação, do internato e mesmo das grandes áreas em que se oferece a residência médica. Ou haveria? Um estudante recém-admitido ao ciclo clínico deseja e precisa de contato com um mestre que saiba ensinar exame físico; um interno em Clínica Médica anseia por alguém que lhe mostre os meandros do diagnóstico diferencial; um residente em Cirurgia quer um docente que ensine toda a arte e ciência do ato de operar. É pouco provável que um docente superespecializado em investigação científica sofisticada e de bancada seja capaz de exibir a mesma competência na execução de meticuloso exame clínico, na formulação de diagnósticos diferenciais, na adoção de condutas práticas à beira do leito ou mesmo de penetrar com rapidez e objetividade num abdome doente. Há exceções de notável competência nas diversas áreas e habilidades, mas são as exceções que confirmam a regra. Tal modelo seria o ideal, mas é raro, pelo menos por ora. Não conheço muitos desses tipos. O ensino da medicina não pode dispensar a prática, em qualquer especialidade, principalmente na Clínica e na Cirurgia. Entretanto, não é o que tenho observado em concursos mais ou menos recentes de que participei, como membro de banca examinadora; neles constatei que o conhecimento e a habilidade profissionais de cunho prático de boa parte dos candidatos não era proporcional à sua excelente produção científica exibida nos currículos. A própria carreira universitária privilegia, para ascensão funcional, publicações em revistas de impacto e a conquista de graus como mestrado, doutorado e títulos (livre-docência), o que é bom, mas valoriza pouco, academicamente, as orientações de cunho prático, a preceptoria, o ensino do exame clínico e outras atividades um tanto “esquecidas”, porém fundamentais para a boa formação do médico. Talvez esteja na hora de repensar tudo. PROF. DR. GILBERTO PEREZ CARDOSO Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da UFF Doutor em Endocrinologia pela UFRJ Editor da revista Conduta® Médica

enviar para amigo >>  
compartilhe >>
voltar

deixe sua opinião

Médicos, Residentes, Professores, Coordenadores de Escolas Médicas

clique aqui

Estudantes,
Acadêmicos de Medicina

clique aqui

NEWSLETTER

Nome:
Email:

EscolasMedicas.com.br © 2010

Logo Hidea