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Vende-se ser médico - por João B Clares de Andrade

07/07/2010

 

Vende-se ser médico

 

João Braines Clares de Andrade

 

A Educação Médica cearense protagonizou, inquestionavelmente, eventos importantes em seus últimos dez anos. Quebrando a oferta sutil de 150 vagas anuais ofertadas pela quase secular Faculdade de Medicina da UFC, a própria UFC, em espírito desbravador e devidamente amparada pelos anseios do governo estadual da época, interiorizou o ensino médico cearense.

Inicialmente, 80 novos médicos foram lançados nas duas principais regiões interioranas do estado, iniciando um movimento, mesmo que disfarçado, que tentava fixar esses novos profissionais em terras sobralenses ou carirenses. Os esforços foram muitos e hoje os dois campi médicos interioranos assistem à gradual expansão de vagas e ao aparecimento de cursos de residência médica. No seguir desses passos, a iniciativa privada, ainda no interior, inaugura a primeira escola médica com fins lucrativos do Ceará, sob a barganha de mensalidades nada discretas...

Já em Fortaleza, a carência por uma nova perspectiva de formação médica, alguma mais socialmente envolvida e que pudesse dinamizar os espaços da rede hospitalar pública estadual, foi suprimida pelo inovador curso médico da Universidade Estadual do Ceará. Apesar da pobreza franciscana da Universidade, seu curso médico já desponta reconhecidamente com um centro de formação de excelência.

Nos últimos 4 anos, no entanto, quando a oferta de vagas em Medicina no estado já beirava as 400 vagas/ano, surgem duas escolas com finalidade lucrativa. Sob o brasão de instituições de respeito, esses dois cursos médicos publicaram "uma nova e moderna forma de se ensinar Medicina", conseguindo vencer a resistência de importantes opositores nos conselhos e associações médicas do Ceará. E grande questão é que nasceram sob excelente e moderna infra-estruturar, mas não justificaram a inexistência de um centro hospitalar como campo de prática e de internato médico.

A chegada da primeira turma ao Internato (período em que o aluno realiza todas as atividades práticas dentro do hospital) revelou preocupação: o período de conforto e de enriquecimento dessas instituições sofreria discreta pena; era preciso ter um ou vários campos de prática que justificassem os quase R$4mil pagos mensalmente. A alternativa, no entanto, não poderia ter sido economicamente melhor: abocanhar a rede pública estadual formada por 7 grandes hospitais até então voltados às universidades públicas, principalmente, a UECE; afinal, é estado servido ao próprio estado...

É inquestionável que o SUS assume a bandeira de grande formador de novos profissionais, mas é preciso ter cautela; apesar de sermos iguais perante a lei, há o direito conquistado por jovens acadêmicos de instituições públicas de poderem usufruir prioritariamente da máquina pública. A injeção desses novos acadêmicos de instituições privadas nos leva a repensar a forma como os espaços são dimensionados: vê-se, pela barganha dos altos salários ou das grandes amizades, convênios e regimentos sendo praticamente reincididos, proporções não respeitadas e o aparecimento de novas vagas que comprometem o bom funcionamento dos serviços.

A criação de novos hospitais, como reza o bom senso daqueles que querem ofertar um curso médico, seria de grande utilidade à população cearense. No entanto, usufruir, por todas as vias imagináveis, de uma estrutura pública já pronta parece atender melhor aos bolsos dos proprietários... Em resumo, a máquina pública está assistindo calada à mercantilização do ensino médico, abrindo exageradamente suas portas àqueles que visam meramente lucrar sobre o "sonho de ser médico" de centenas de jovens cearenses...

 

João Brainer Clares de Andrade                                   j.brainer@uol.com.br

 

 

 

 

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