Logo Escolas Médicas

Artigos & Matérias

O pior cego é o que não quer ver - Waldir Cardoso

28/05/2012

21/05/2012 às 0:03 |
Publicado em Saúde, Waldir Cardoso | 5 Comentários 

No Brasil, os médicos vivem a situação do pleno emprego. Resultado da ousadia constitucional de instituir a saúde como direito de todos e dever do estado e do crescimento econômico que vivenciamos nos últimos dez anos. Paradoxalmente, o exercício da profissão nunca esteve tão ameaçado e a sociedade correndo grave risco da assistência médica piorar ainda mais.

A universalização da atenção à saúde associada à descentralização da assistência médica provocou forte demanda por médicos em todos os 5.564 municípios brasileiros. O crescimento econômico, o aumento da massa salarial e a ampliação da oferta de emprego retiraram milhões de pessoas da pobreza constituindo o que foi cunhado de “nova classe média”. Este contingente populacional foi ao mercado e um dos itens de consumo escolhidos foi a compra de planos de saúde uma vez mais ampliando a demanda por médicos.

No Sistema Único de Saúde (SUS) a contratação de médicos pelos estados e municípios obedece a lei da oferta e da procura. Desta forma, com o mercado aquecido, o trabalho médico ficou caro e levou à concentração dos médicos nos grandes centros urbanos onde estes têm acesso, facilmente, a bens de consumo, cultura, tecnologia, atualização profissional, etc.

O governo federal não fez uma boa anamnese e diagnosticou a concentração de médicos e o alto custo do trabalho médico como “falta de médicos”. Diagnóstico equivocado leva a terapêutica errada. A solução oferecida à presidente por seus burocratas do Ministério da Saúde e Ministério da Educação são desastrosas.

Senão vejamos: Serviço civil obrigatório, que levaria médicos a força para trabalho temporário durante um ou dois anos em cidades de difícil promimento de médicos. Pensem na satisfação destes profissionais. O natimorto PROVAB, oferecendo mundos e fundos aos médicos, esquecendo que os prefeitos não têm recursos para pagar o que o mercado determina.

Outras estratégias “brilhantes”: criar a revalidação automática de diplomas médicos obtidos no exterior trazendo para o país, a curto prazo, uma massa de cerca de 25.000 médicos, a maioria concluindo seus cursos nas faculdades de fim de semana na Bolívia; ampliar o número de vagas nas escolas médicas existentes e aprofundar a abertura indiscriminada de escolas médicas flexibilizando as avaliações das empresas proponentes, sob o manto de um “novo olhar” sobre o processo, com o objetivo é ter, em três anos 8.000 novas vagas nos cursos de medicina.

Se todas as propostas forem implementadas teremos como resultado o aumento exponencial de médicos no país, queda brutal na qualidade da assistência médica, aumento da concentração de médicos nos grandes centros e pauperização da categoria médica. Perderão os médicos, mas, desgraçadamente, perderão muito mais a população e a medicina brasileira.

O diagnóstico correto não é “falta de médicos” e sim “falta de política de recursos humanos”. A política de recursos humanos para o SUS deve ser uma política de estado. A oferta de profissionais não pode se dar pelas leis de mercado. Todas as atividades estratégicas para o país são garantidas através de sistema sustentável e meritocrático. O judiciário, militares, diplomatas, auditores fiscais, todos têm carreira de estado. A carreira fixa o profissional, traz o estímulo à qualificação, premia pelo mérito e dedicação, oferece perspectiva de futuro e é excelente instrumento de gestão. A Carreira é a solução. Só não vê quem não quer.

               Waldir Cardoso        

5 COMENTÁRIOS »

Feed RSS para comentários sobre este post. URI de trackback

  1. Dr. Waldir

    Todos nós sabemos da política governamental que você relatou, o que fazer ? Estamos em minoria no Congresso Nacional, temos poucas forças como corporação ! Somos desunidos ! O governo tem maioria no Congresso e vai impor tudo! Ficamos olhando! Nos antecipamos ? Como fazer ?

    Acho que a solução é política e tentarmos agora elegermos vereadores e prefeitos que tenham compromissos com os médicos e a seguir eleger os deputados e senadores, sem esta força política não chegaremos a nada e não teremos carreira de médico nunca.

    Guilherme Pitta

  2. Perfeito Waldir! Enquanto isso, uma chuva de aproveitadores se locupletam nessa escuridão de incompetências. Por essas e outras é que eu tenho que concordar com o dito: “Em terra cheia de cachoeiras, e cegos, quem tem 1/2 olho se acha rei”, e os súditos…?

  3. Waldir, está muito claro que só interessa a nós médicos solucionar a saúde no Brasil. O plano de carreira semelhante ao do judiciário, ha muito almejado, me parece a única solução para fixar o médico no interior. É um absurdo a validação de diplomas de cursos sem qualidade. Sabemos da falta de condições das unidades dos interiores e colocar nestes locais profissionais de formação duvidosa é o cúmulo.

  4. Querido Waldir, tenho uma proposta: que tal se a catgoria dos profissionais médicos se reunissem, EM GRANDE NÚMERO É CLARO, e começassem a informar o número pacientes/habitantes por médico, não sei… a importância da sua valorização como profissional e, ser humano também, e tentar fazer parte do debate, pois presencio muita das vezes eles só reclamando do SUS e do Privado, sem tomarem atitude, ficando dontes também, pois só falar e não agir, não adianta nada. Portanto, enquanto sociedade civil, conclamo ao médico que saia desse corre corre, passando minutos em posto de saúde e correndo para o outro, saindo do consultório privado e correndo para ir dar aula nos cursinhos que os pagam melhor e quando dá tempo, eles dão uma “passadinha” rápida no SUS para cumprir uma tabela, muita das vezes entrando até de costas no consultório pelo seu tempo “curtíssimo”.
    Bom, na verdade esse é o desabafo de uma pessoa que passa a maior parte do dia pensando estratégias de como fazer o médico atender, minimamente que seja, o paciente do SUS, com um pouco mais de dignidade.

    • É um grande desafio, Suzete. A falta da carreira faz com que os gestores não tenham este importante instrumento a sua disposição.
      A Carreira poderia ajudar muito, dando incentivo, não apenas financeiro.
      Uma ideia: descobrir um jeito do médico conhecer o resultado do seu trabalho. Indicadores.
      É só uma ideia. Na verdade, não imagino como implementar isso num posto de saúde.
      Para a Estratégia Saúde da Família é perfeitamente possível e acredito que seja feito.
      Num simples ambulatório é muito difícil.
      Abs.


enviar para amigo >>  
compartilhe >>
voltar

deixe sua opinião

Médicos, Residentes, Professores, Coordenadores de Escolas Médicas

clique aqui

Estudantes,
Acadêmicos de Medicina

clique aqui

NEWSLETTER

Nome:
Email:
Banner

EscolasMedicas.com.br © 2010

Logo Hidea