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MOOC, uma revolução em curso - por Ronaldo Mota e Andreia Inamorato

26/11/2012

Segunda-Feira, 26 de novembro de 2012

 

  JC e-mail 4630, de 26 de Novembro de 2012. 

  11. MOOC, uma revolução em curso  por Ronaldo Mota e Andreia Inamorato 

  

Ronaldo Mota é pesquisador visitante (Cátedra Anísio Teixeira/CAPES) no Instituto de Educação da Universidade de Londres e professor aposentado de Física da UFSM. Andreia Inamorato é pesquisadora, palestrante sobre REA, e consultora em educação a distância. Artigo enviado ao JC Email pelos autores.

 

 

MOOC significa "curso aberto pela internet para grandes massas" (em inglês, Massive Open Online Course) e é, provavelmente, o fenômeno educacional mais recente. Segundo alguns, constitui uma possível ruptura na educação superior em termos de ensino e aprendizagem online. Tal entusiasmo, ainda que compreensível, demanda a necessária cautela, dado que o conceito, ainda em consolidação, é extremamente recente (cinco anos), ele próprio ainda submetido a alterações com novas tendências internas emergindo, bem como vários desafios ainda a enfrentar.

Duas características essenciais caracterizam os MOOCs: são cursos abertos e permitem escalabilidade. Sobre a primeira, significa que mesmo estudantes que não estão regularmente registrados na instituição promotora podem participar. No entanto, é preciso lembrar que uma limitação ao "aberto" está associada à exigência de habilidades mínimas por parte dos participantes, o famoso "letramento digital", além da infraestrutura tecnológica com acesso à internet e preferencialmente com uma banda razoável que permita a navegação sem muitas frustrações. Sobre escalabilidade, o desenho do curso é apropriado para atender crescimento exponencial de matrículas, podendo chegar a centenas de milhares de estudantes participando em cada oferta de curso.

Embora desde meados da década de 1990, cursos online sejam oferecidos, o primeiro com características próprias de MOOC foi ofertado em 2007 na Utah State University, por David Wiley, ainda que a denominação MOOC só tenha sido cunhada um ano após por George Siemens e Stephen Downes, na Athabasca University no Canadá. Neste caso, ambos lançaram o primeiro assim denominado MOOC, que teve 2.300 estudantes de diversos países, numa tentativa explícita de utilizar as tecnologias emergentes para propiciar a chamada "aprendizagem social distribuída em rede".

Mesmo com várias iniciativas semelhantes ao longo do final da década passada, somente em 2011, com o MOOC "Inteligência Artificial", promovido pela Universidade de Stanford, com quase 160.000 matrículas, é que o modelo chamou definitivamente a atenção de todos e ganhou notoriedade jornalística. Recentemente, dois professores de Stanford criaram uma empresa denominada Coursera (http://www.crunchbase.com/company/coursera), da qual participam universidades de elite, incluindo, entre outras: Princeton, École Polytechnique Fédérale de Lausanne, University of Toronto, Columbia, Brown, Melbourne, Hebrew, University of Jerusalem e Honk Kong University of Science and Technology.

No momento, Coursera oferece dezenas de cursos variando de engenharia a sociologia e já contam com impressionantes mais de um milhão de matrículas com estudantes oriundos de 196 países. Outras importantes iniciativas estão brotando a todo momento e em todos os lugares. O MIT (Massachusetts Institute of Technology) deu origem ao MITx2 (http://ocw.mit.edu/index.htm) em dezembro de 2011. No começo deste ano, um professor de Stanford fundou a Udacity (http://www.udacity.com), em maio, Harvard, juntamente com MIT e Berkeley, criaram o edX4 (https://www.edx.org), e assim por diante. O Brasil também participa ativamente deste processo e já tem seu primeiro MOOC (http://moocead.blogspot.co.uk/) sobre o apropriado tema "educação a distância", proclamado como o primeiro em língua portuguesa, idealizado por João Mattar (Brasil) e Paulo Simões (Portugal).

Os MOOCs, ainda que a maior parte deles ainda possam ser considerados como em caráter de experiências piloto, em sua dinâmica atual estão gerando duas correntes distintas, as quais parecem mesmo divergir, com baixas chances de reencontro posterior, dado diferir em objetivos e métodos. George Siemens (http://www.slideshare.net/gsiemens/designing-and-running-a-mooc) entende que os dois ramos derivados podem ser associados aos denominados cMOOCs, tipo-CCK MOOCs, e os xMOOCs, tais como Coursera e edX.

Os cMOOCs são baseados no Conectivismo, uma teoria da era digital que parte da premissa que o conhecimento está no mundo e não apenas no indivíduo, como afirmam outras correntes de aprendizagem, tais como o Cognitivismo e o Construtivismo. Alguns elementos que ajudam a caracterizar o conectivismo são: i. aprendizagem e conhecimento estão diretamente associados à máxima diversidade de opiniões, ii. aprendizagem passa por um adequado processo de conexão a fontes especializadas de informação, iii. desenvolvimento da capacidade de saber mais é mais relevante do que o que momentaneamente se sabe, iv. capacidade de enxergar conexões entre os campos de conhecimentos, ideias e conceitos constitui uma habilidade central, e v. aprendizagem, nesta modalidade, depende de máquinas conectadas, demais infraestrutura tecnológica associada e facilidades de conexão como elementos essenciais para facilitar uma aprendizagem que possa fluir sem dificuldades.

Assim, os cMOOCs se caracterizam pela utilização do conteúdo como ponto de partida e os estudantes são encorajados a expandir e criar conhecimentos a partir de seus próprios interesses e buscas na rede. Via os processos de agregação, mixagem, customização e compartilhamento, os cursos evoluem. Agregação significa que, diferentemente dos cursos tradicionais onde o conteúdo é estático e definido preliminarmente, durante o curso, após o seu início, novos conteúdos são permanentemente agregados ao ecossistema do curso, baseado na interatividade entre os professores responsáveis e os estudantes participantes, todos entendidos como contribuintes ao cMOOC. Mixagem porque é fortemente estimulado associar o material específico preparado para o curso com outros conteúdos que forem tornados disponíveis ao longo do curso. Customização, desde que o material resultante da mixagem é permanentemente redesenhado em uma forma customizada tal que seja apropriadamente utilizado pelos participantes, viabilizando que eles atinjam seus objetivos específicos. Compartilhamento é associado ao fato que o material redesenhado deve ser distribuído a todos os demais participantes do curso. Ou seja, um cMOOC utiliza múltiplas plataformas (blogs, wikis, websites e redes sociais as mais variadas), além de priorizar a interatividade entre os participantes. O cMOOC, portanto, não é todo planejado desde o início, a experiência evolui conforme o curso se desenvolve.

Os xMOOCS, diferentemente dos cMOOCS, são mais recentes ainda e se baseiam num formato estruturado e tradicional, que segue um fluxo, a partir de conhecimento pré-definido pelo professor, compartilhado de um para muitos. Neste modelo a figura do professor é central e em geral professores doutores de universidades renomadas os responsáveis, os conteúdos são definidos a priori pela instituição e não se prioriza a interatividade entre os participantes.

Em qualquer das modalidades, cMOOCs ou x MOOCs, é correto afirmar que instituição de ensino superior que hoje não oferece educação a distância e não está pensando em como abrir o conhecimento produzido por ela à sociedade, está operando de forma menos competitiva. Os estudantes estão cada vez mais aproveitando a abertura de conhecimento das universidades como uma vitrine para a escolha de como e onde estudar, uma vez que têm acesso a professores, conteúdos, modelos pedagógicos e tecnologias antes não compartilhados.

Os MOOCs ainda enfrentam muitas dificuldades. Um dos mais importantes desafios inclui como garantir uma participação mínima, evitando deixar muitos para trás, ainda que cada um tenha seu próprio ritmo. Em geral, as desistências estão associadas às dificuldades quanto ao nível de autonomia exigido, a capacidade de lidar com o ambiente tecnológico adotado, bem como o persistente sentimento, em alguns casos, acerca da ausência da presença física de professores e colegas.

De acordo com Phil Hill (http://mfeldstein.com/four-barriers-that-moocs-must-overcome-to-become-sustainable-model/), as quatro barreiras que o modelo MOOC ainda precisa superar dizem respeito a: i. consolidação de modelos de financiamento que garantam sustentabilidade, ii. Entregar certificados de conclusão aceitáveis em programas acreditados, garantindo que o que o certificado afirma corresponde efetivamente ao que as empresas empregadoras desejam contratar, iii. enfrentar a relativamente alta evasão ao longo do curso.

Em que pesem os desafios remanescentes, os benefícios visíveis para o educando ao adotar os MOOCs como fonte de novo conhecimento são largamente dominantes, o que é também atestado pelo enorme sucesso que eles têm experimentado nos últimos tempos. As razões são múltiplas: i. MOOCs são abertos, mesmo para aqueles que não são estudantes regulares na instituição promotora e, em geral, com custo zero, ou próximo disso, ii. enorme flexibilidade, permitindo aos participantes escolher espaço e tempos convenientes para se dedicar ao curso, iii. independente de restrições curriculares e das formalidades usuais, evitando salas de aula e viabilizando tratar de temas variados associados ao conteúdo principal, iv. compartilhamento de pensamentos e material adicional entre todos os participantes de forma muito mais acessível do que em cursos tradicionais, v. os equipamentos e conexões internet exigidos estão se tornando cada vez mais comuns e simples, vi. oportunidades para, via links, acessar conhecimentos prévios ou posteriores, dependendo do específico nível e interesse do estudante, vii. grande oferta de conteúdo variável, permitindo ser customizado de acordo com perfil e demanda particular de cada participante, viii. custo relativamente barato para os professores responsáveis pela elaboração do MOOC, estimulando os modelos colaborativos, ix. MOOCs podem ser desenvolvidos voltados a atender demandas específicas do trabalho de uma determinada empresa, permitindo e estimulando que os funcionários usem também o tempo eventualmente disponível no próprio serviço, x. promove naturalmente uma imersão em tecnologias digitais, as quais são essenciais para quaisquer atividades contemporâneas, e xi, propicia e estimula a formação de novas redes de relacionamento, tanto entre os colegas como entre os estudantes e os professores.

O futuro exato dos MOOCs é ainda incerto; a não ser a realidade consolidada de que eles chegaram para ficar e fazer parte em definitivo de nosso universo educacional. Mesmo assim, há ainda um longo caminho até que eles efetivamente sejam incorporados como parte integrante substantiva da formação acadêmica em grande escala, lembrando sempre que atualmente essas coisas costumam ocorrer, às vezes, mais rapidamente do que esperamos.

Até agora, os MOOCs têm oferecido aos concluintes um atestado de conclusão e raramente também uma nota. Porém, as coisas estão se alterando muito rapidamente. A Universidade de Washington (http://www.washington.edu/news/2012/07/18/uw-is-first-u-s-school-to-give-credit-for-classes-certificate-programs-on-massive-open-online-course-platform/) acaba de anunciar que deverá ser a pioneira em utilizar MOOCs com concessão de créditos e os estudantes provavelmente terão que arcar com as taxas relativas ao material disponibilizado, tutorias, exames de avaliação etc.

A ideia dos MOOCs é, de fato, precedida pelo movimento global de Recursos Educacionais Abertos (conhecido por REA) e que vem ganhando espaço no cenário nacional e internacional. REA, termo cunhado em evento da Unesco em 2002, são materiais educacionais ou de pesquisa, incluindo cursos completos, objetos de aprendizagem, textos, vídeos, livros e software, disponíveis em qualquer formato ou mídia, que estejam em domínio público ou que tenham uma licença de uso aberta, permitindo o reuso e adaptação por terceiros.

Uma vez que há uma década se fala e se faz REA internacionalmente, seria interessante vermos mais cursos em língua portuguesa oferecidos por universidades brasileiras nesse modelo. Há quem argumente que produção acadêmica fomentada com dinheiro público é um bem público, e, portanto, não deve estar fechado às quatro paredes da universidade e aos poucos que tenham acesso a ela. No caso das universidades particulares e confessionais, além do compromisso social que a elas igualmente cabe, existem também os fatores visibilidade e atração de matrículas, como aconteceu com o já famoso MIT, que ao abrir seu conteúdo na forma de REA desde meados da década passada, teve sua reputação ainda mais solidificada.

George Siemens enfatiza o alinhamento dos cMOOCs ao movimento REA, apesar de não serem sinônimos. Os MOOCs podem ou não ser REA, dependendo da licença de uso utilizada nos seus materiais educacionais.  Pedagogicamente falando, os cMOOCs não se limitam ao conteúdo pré-empacotado pelas universidades, uma vez que facilitadores (professores) e participantes (estudantes) são igualmente curadores de conteúdo, nova habilidade do século XXI, e procuram utilizar e produzir REA, ainda que não exclusivamente. Tudo é tão novo que até a terminologia adequada ainda está em construção.

Já os xMOOCs são mais estruturados, como um curso tradicional e geralmente, com pouquíssimas exceções, não apresentam conteúdos licenciados de forma aberta. São cursos de acesso livre, mas não necessariamente abertos no que se refere à adaptação, reuso e redistribuição do conteúdo.

Os MOOCs estão alinhados com os princípios da educação aberta, que entre outras características, preveem flexibilidade e redução de barreiras de acesso, além de grande diversidade de material utilizado durante o curso. Educação aberta é um conceito que existe há muitas décadas, mas que agora se reconfigura com o avanço da tecnologia e novas possibilidades de distribuição de conhecimento, acesso e licenças abertas.  Nessa configuração contemporânea de REA e educação aberta, os MOOCs são frutos das tecnologias aplicadas à educação, e da descoberta de que, por causa desses avanços, a capacidade de uma aprendizagem em rede, aberta e distribuída, faz parte das habilidades individuais que terão cada vez maiores demandas na sociedade da informação em que vivemos.

Por fim, os MOOCs reúnem um conjunto não pequeno de incertezas e indefinições, típicos de novidades com potencial transformador. A única certeza é que iniciativas do tipo estão em perfeita sintonia com explorar possibilidades de transformar educação em um bem mais acessível com qualidade e contribuindo com a formação de profissionais e cidadãos aptos a enfrentar os desafios do mundo contemporâneo e tornando possível um desenvolvimento social e econômico sustentável.

 

* A equipe do Jornal da Ciência esclarece que o conteúdo e opiniões expressas nos artigos assinados são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do jornal.

 

 

 

 

   

 

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