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Brasil, risco da radicalização : *Carlos Alberto Di Franco

26/05/2014

26 de maio de 2014 | 2h 07

*Carlos Alberto Di Franco - O Estado de S.Paulo

Confundido com o irmão, o servente de pedreiro Mauro Rodrigues Muniz sobreviveu a uma tentativa de linchamento. O episódio ocorreu em Araraquara (SP). Durante as agressões, familiares de Mauro gritavam que estavam confundindo os irmãos, mas o espancamento continuou. O rapaz quase foi morto. Recentemente, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi linchada no litoral de São Paulo após boato de que seria uma sequestradora de crianças para rituais de magia negra. O crime bárbaro do Guarujá pautou o noticiário e foi o ponto de partida para uma discussão que deve ser feita na sociedade e no jornalismo: a responsabilidade da informação. A boataria começou num pretenso site jornalístico e desencadeou uma onda de justiçamento, que provocou a morte de uma inocente.

A brutalidade, por rotineira, já não produz o mesmo impacto que causaria no passado. Ela ocupa, talvez, o tempo de uma conversa de bar. É tremendo, sobretudo para os familiares das vítimas, mas é assim. Estamos, todos, perplexos e atemorizados. O Brasil está ficando esquisito. Violência sempre existiu. A decantada cordialidade brasileira dissimulou, frequentemente, o lado sombrio do nosso cotidiano. Mas agora é diferente. Não se põe o Sol sem que imagens brutais alimentem a edição dos telejornais da noite. Linchamentos começam a fazer parte da rotina informativa. Para onde vamos? Como é que chegamos a isso? As perguntas estão subjacentes em inúmeras cartas, e-mails e comentários nas redes sociais. Todos sentem que a coisa está malparada e não vai acabar bem.

Recentemente, Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, deu sugestiva entrevista à jornalista Sonia Racy, editora da coluna Direto da Fonte, do jornal O Estado de S. Paulo. Ao tratar da eleição deste ano, Montenegro foi fundo. Vale a pena reproduzir suas declarações: "Estou aqui há 42 anos e acho que esta é a eleição mais difícil da história do Ibope. A impressão que me dá é de que realmente o Brasil precisa fazer uma reforma política, mas fazer mesmo. Sinto que as pessoas estão nauseadas, enfadadas, não sei o termo, estão enojadas. A princípio, pela leitura das pesquisas hoje, quem é o grande ganhador da eleição? Ninguém. Está cada vez maior a fatia de branco, nulo, indeciso. O desânimo é com tudo, é com a política, é a confusão. A página do mensalão foi uma página diferente, o pessoal achava que a impunidade era total e, de repente, alguma coisa aconteceu. Na hora em que você está acabando de virar a página, vem uma confusão maior ainda com o caso Petrobrás. (...) Você vê Polícia Federal invadindo a Petrobrás, gente sendo presa, é doleiro, é diretor, é o ex-presidente da estatal dizendo que foi certo e a atual dizendo que foi errado".

A decepção com a política é completa. "Se o voto fosse facultativo, quase 60% não votariam nesta eleição. As manifestações do ano passado já foram um aviso disso. Eu diria que qualquer um dos candidatos que vencer a eleição será uma zebra - qualquer um, porque o desânimo, a tristeza com a política, a falta de sonhos e de programas é imensa."

As reflexões de Montenegro explicam muita coisa e acendem uma poderosa luz vermelha. A sociedade está exaurida. A incompetência e a impunidade são o estopim da radicalização. Os problemas de mobilidade urbana, falta de segurança, carências nas áreas da saúde e da educação passaram da conta. Pronunciamentos na televisão e transferência de responsabilidade não funcionam mais. Não adianta falar das maravilhas do programa Mais Médicos para uma pessoa que é maltratada no posto de saúde. É ridículo anunciar bilhões para mobilidade urbana para gente que passa, diariamente, três ou quatro horas numa condução para chegar em casa ou ao trabalho. O povo cansou-se. E a exaustão pode despertar forças incontroláveis.

Um dos traços comportamentais que marcam a decomposição ética da sociedade é, efetivamente, o desaparecimento da noção da existência de relação entre causa e efeito. A responsabilidade, consequência direta e lógica dos atos humanos, simplesmente desapareceu. O fim justifica os meios. Sempre. Trata-se da consequência lógica do raciocínio construído de costas para a verdade e para a ética. O político não tem limites na busca do poder. O burocrata avança no dinheiro público.

Os linchamentos, assustadoramente frequentes, refletem a perigosa e radical descrença das pessoas nas instituições democráticas. O risco do caos social não é uma hipótese alarmista. E a possibilidade de uma solução radical e autoritária, também não. A defesa da democracia passa, necessariamente, pelo fim da impunidade e por respostas claras às justas demandas da sociedade.

O custo humano e social da corrupção brasileira é assustador. O dinheiro que desaparece no ralo da delinquência é uma tremenda injustiça, um câncer que, aos poucos, vai minando a República. As instituições perdem credibilidade numa velocidade assustadora. Pagamos impostos extorsivos e recebemos serviços públicos de péssima qualidade. A economia range não por falta de vigor e de empreendedorismo. Ela está algemada por uma infraestrutura que não funciona e, por isso, os produtos não chegam ao destino.

Os políticos e governantes precisam acordar. Os justiçamentos, terríveis, são o primeiro passo de comunidades que começam a virar as costas para as estruturas do Estado. A "justiça" direta é terrível. É preciso dar uma resposta efetiva aos legítimos apelos da sociedade, e não um discurso marqueteiro. A crise que está aí é brava.

O isolamento mental de Maria Antonieta, em 1789, acabou na queda da Bastilha. A História é boa conselheira. Os políticos precisam sair um pouquinho da Ilha da Fantasia e sentir a temperatura do Brasil real. Os brasileiros merecem respeito.

*
DOUTOR EM COMUNICAÇÃO PELA UNIVERSIDADE DE NAVARRA, É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO DO INSTITUTO INTERNACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS
E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR

 

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