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E a ilusão acabou - Anna Veronica Mautner

29/10/2014

 

28/10/2014  02h00

 

Hoje em dia vivemos sem líder, sem ídolo, sem ninguém que a gente queira ser quando crescer. Será que as crianças na escola ainda admiram, como nós admirávamos, um ou outro professor? Onde está aquele chefão ou patrão ou professor que eu queria ser quando crescer? Essa falta é, a meu ver, a maior transformação que está ocorrendo no começo deste século 21.

Onde está aquele para quem olho com admiração, inveja, respeito? Onde está aquele em quem confio?

O excesso de transparência, ideal dos nossos tempos, acabou com a ilusão e as idealizações. O mistério que envolve o ser que admiramos, que enxergamos como mestre, guia, líder, exemplo, modelo não é para ser entendido, mas para nos surpreender permanentemente. Desvendá-lo deve ser uma eterna luta, nunca bem-sucedida.

O líder é avaliado por seus efeitos, não por sua essência. Não importa quem é –o importante é que ele exista e sua presença destrua qualquer desconfiança que possamos ter com relação ao seu olhar, gesto, ato. Hoje, com a vigência da idealização da transparência como imposição cultural, tornamos difícil toda e qualquer adoração.

Que desalento!

Os pais se abrem e se fazem transparentes para os filhos, os professores se explicam para os alunos e se expõem. Não há mais aquela fé cega, aquela relação de confiança que nos dá tranquilidade.

Duvidamos.

Tornamo-nos especialistas em desvendar o lado de lá. E agora?

Os últimos (líderes universais) foram malvados: Stálin, Mao Tse-tung, Hitler, Perón, Mussolini, Getúlio Vargas. E onde estão eles? Onde vocês se escondem, vocês que sempre ficaram escondidos atrás de si próprios, sendo que esse si próprio não passava de uma construção, não uma revolução?

É estranho dizer o que vou dizer, mas a excessiva liberdade de expressão e o permanente acesso às emoções nos deixaram no desamparo. Ninguém mais se ilude ou nos ilude. Ficamos à mercê das causas primeiras do cada um –e aí, nesse lugar, a ilusão inexiste. A paixão e a procura ininterrupta pela verdade, o apego ao real apaga as cores da ilusão que nos permitem a sensação e o sentimento de sermos heróis de nós mesmos.

"Eu sou do bem porque conheço, reconheço, encontro".

Ai, que saudades eu tenho das ilusões que já me acalentaram! Eis aí mais uma ilusão, a de não encontrar o sonho, que nunca é banal.

Hannah Arendt já disse que até o mal é banal. Mas a ilusão, não. Se o mal é banal, se o bem é a lembrança da ilusão diluída, só resta fome, dor, medo. Se o mal e o bem estão se tornando indefinidos, dissolvidos pela ilusão que acaba, resta a rotina, o cotidiano, as faltas, a carência.

Com pouca dor e muita raiva criaram-se os Estados, as nações, às quais cabe a missão de sustentar e amparar com identidade os seus cidadãos. Se estou mal, é porque o coletivo me desamparou. Sentir falta não é mais da natureza humana, e sim uma consequência de um coletivo que não funciona.

ANNA VERONICA MAUTNER é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (Ágora)

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