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Faculdade de medicina vira investimento financeiro - Antônio Carlos Lopes

01/01/2015

16/10/2014  02h00

Foi-se o tempo em que a medicina era vista também como importante compromisso social. Há muitos anos, quando alguém se dispunha se tornar um médico, o sonho era servir ao próximo, melhorar a qualidade de vida das pessoas e ajudar a criar um mundo mais digno.

O mesmo ocorria com a abertura de escolas de medicina. Eram criadas pensando no bem-estar da comunidade. Graduar um médico era ação séria e intimamente direcionada ao benefício coletivo, à promoção da saúde.

De 1500 a 1999, o Brasil criou 106 cursos de medicina. A maioria com estrutura necessária à boa formação. Ocorre que empresários da educação e políticos perceberam nessa meio um filão de prestígio e riqueza. Resultado: nos últimos 14 anos foram abertas mais 136 faculdades médicas. Hoje, temos 242.

Forma-se de olho na quantidade, não na qualidade. Caberia ao Estado fiscalizar os abusos e coibi-los. Acontece o contrário.

Veja o despropósito: semanas atrás, o Ministério da Educação (MEC) autorizou a abertura de mais dezenas de faculdades de medicina. Assim, desde então, 39 municípios estão liberados para criar cursos médicos; 14 deles em São Paulo. Outras sete cidades receberam aval para ter suas próprias escolas de medicina, desde que obedeçam a pequenas adequações solicitadas pelo MEC.

O governo afirma que temos número insuficiente de médicos e vai formando aos borbotões. Presta, então, um desserviço à sociedade. Do que adianta termos médicos aos montes se a formação é ineficiente? Se não houver professores capacitados, preceptoria apropriada e recursos estruturais satisfatórios, será impossível formar bons profissionais.

O médico, mesmo com formação de excelência, não consegue realizar curas milagrosas. A saúde é feita com o uso de equipamentos, exames, infraestrutura hospitalar, equipe multidisciplinar. Trata-se de um conjunto.

É lamentável como o Estado se abstém do seu dever de investir em melhorias nas unidades de saúde, usando os profissionais como bodes expiatórios de sua incompetência.

A imprudente autorização de graduações de medicina penaliza os estudantes, que, inocentes, chegam a pagar até R$ 9 mil mensais em instituições privadas, recebendo como contrapartida formação precária.

Prejudica ainda mais o cidadão, que sofrerá na pele os danos da assistência medíocre. Não conhecemos nenhuma escola a ser aberta em que o interesse não seja político, econômico e de promoção de diretores incompetentes.

A proposta do governo é aumentar em 65% o número de vagas em medicina até 2017. O problema é que os novos cursos previstos no programa Mais Médicos aceitarão docentes sem mestrado ou doutorado, visto que há um déficit de professores. Será o desqualificado transferindo seu desconhecimento aos pobres acadêmicos.

Um dos reflexos de tamanha irresponsabilidade: a edição 2013 do exame do Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo), mesmo com perguntas de práticas clínicas extremamente básicas, reprovou 59,2% dos recém-formados em São Paulo.

O alto índice de reprovação demonstra que os profissionais estão saindo despreparados das faculdades, e, já que a prova não é eliminatória, em breve atenderão a você em consultórios e hospitais.

Não. É inadmissível correr o risco de ser a vítima da falta de juízo de autoridades e da ganância de certos empresários da educação e da saúde, em particular os diretamente vinculados a hospitais de butique que primam pela competência na busca do enriquecimento.

ANTÔNIO CARLOS LOPES, 69, é professor titular da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM)

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