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O que o preceptor Quiron pode ensinar ao preceptor da residência médica - João Carlos Simões

05/01/2015

O QUE O PRECEPTOR QUÍRON PODE ENSINAR AO PRECEPTOR DA RESIDÊNCIA MÉDICA.

 

João Carlos Simões(*)

 

Píndaro (518-438 aC.) Em uma de suas odes, a III Pítica, menciona a doença que está minando a saúde de Hieron de Siracusa. Ali, relata a lenda do nascimento de Asclépio ou Esculápio.

Na Tessália, a bela Coronis, uma mortal, filha do lápita Flégias e irmã de Íxion, entregou- se amorosamente ao deus-sol Apolo e esperava um filho dele.

Antes de dar à luz, no entanto, ela teve uma aventura com Ísquis, a quem havia sido prometida. Apolo encolerizou-se ao saber da traição e matou Ísquis, e pediu à irmã, Ártemis, que matasse a amante infiel com uma flecha.

Apiedou-se, no entanto, da criança, e retirou-a do ventre da mãe (provavelmente a primeira cesariana dos deuses) antes que as chamas da pira funerária a incinerassem(1).

Apolo entregou Asclépio aos cuidados do preceptor Quíron. Este foi o responsável pela educação e criação do menino, com quem aprendeu todos os segredos da arte curativa com plantas medicinais.

O preceptor Quíron (em grego , Kheíron, “mão”) era um centauro, meio homem e meio cavalo, filho de relação adúltera entre Saturno (Cronos) e a ninfa Filira, e foi adotado por Apolo e Athena.

Tendo recebido ensinamentos a respeito das artes, ciências, terapêutica e adivinhações, fundou o Quironion, templo de cura e de autoconhecimento. Lá se dirigiam as pessoas para aprender artes e ciências e curar-se das doenças do corpo e do espírito.

O deus Saturno, para se esconder da esposa Reia, se metamorfoseou em cavalo para se encontrar com Filira: dessa união nasceu o centauro, metade cavalo e metade homem.

Quíron foi abandonado pela mãe, que não se conformava com a criatura horrorosa que gerara. O pai fugiu e a mãe não quis saber dele. Imortal, por ser filho de Saturno, Quíron sobreviveu, tendo sido adotado por Apolo, que lhe ensinou diversas técnicas, artes e conhecimentos

Ele era o “centauro chefe” e o preceptor máximo, tanto das artes da sobrevivência, como da cultura, da filosofia, e passou a orientar e burilar o intelecto dos discípulos, ficando conhecido também por preparar os futuros heróis.

Quíron era ainda hábil no uso da medicina de ervas e plantas e em Astrologia. Ele tinha o poder de cura nas mãos, e o que não conseguia curar, ninguém mais conseguiria.

A arte de curador desenvolveu-se mais quando Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha envenenada de Hércules, que havia sido banhada no sangue da Hidra (sendo, portanto, venenosa), que causou em Quíron uma ferida incurável (quem sabe a primeira neoplasia maligna descrita).

Impotente para curar seu ferimento e não podendo morrer por ser imortal, ele começou a sofrer intensamente, recolhendo-se a uma gruta no monte Pélion onde, porém, continuou transmitindo seus conhecimentos aos discípulos.

Ao conviver com suas próprias dores e não morrer, talvez tenha ensinado a descobrir, em si mesmo, a dor que curava nos outros, aprofundando a sua sensibilidade em relação ao sofrimento e tratamento.

O “curador ferido” aparece em muitas das nossas palavras derivadas do grego antigo. A palavra kheir, que significa mão, compõe não somente o nome de Quíron e provavelmente significa “hábil com as mãos” (a forma antiga é Kheíron), mas também está no centro da representação das diversas palavras que servem para amplificar o arquétipo do centauro, como em quiromancia, quirografia, quiroprática e quirurgia, que veio a ser cirurgia (trabalho manual).

 

ASCLÉPIO ou ESCULÁPIO

 

Asclépio foi educado pelo preceptor Quíron, que era um educador bondoso e capaz de desenvolver as potencialidades dos seus discípulos. Ensinou ao aprendiz tudo sobre a arte de curar e aliviar as dores e doenças.

Quíron foi superado rapidamente por seu aprendiz. Asclépio encontrava remédio para todas as doenças, libertava as pessoas dos seus tormentos, salvando inclusive aqueles próximos da morte.

Como a arte de Asclépio chegou ao ponto de ressuscitar os mortos, Zeus, o principal deus do Olimpo, preocupado com a despovoação do Hades e a ordem natural das coisas, matou Asclépio com um raio, mas, em seu reconhecimento, levou-o aos céus e transformou- o em divindade.  Apolo colocou então o seu filho entre as estrelas, como a constelação do Serpentário (Ofiúco) (2).

O conhecimento do mito de Quíron representa a existência de modelos potenciais com os quais os nossos estudantes e médicos residentes possam se identificar na prática cotidiana da Medicina: o cuidador que tem compaixão.

Silva e Ayres(3) referem: “O mestre Quíron é o ideal desejado por eles exatamente por saber lidar com o próprio sofrimento e o do outro, conseguindo estar ao lado de seus discípulos e pacientes no adoecimento e na morte.”

O discurso de humanização da prática médica atual é bastante recorrente. A reumanização do processo de atendimento do paciente até a sua  morte e as interações dessas práticas são dificultadas pelo pouco suporte de ensino-aprendizagem nessa direção proporcionada pelos cursos atuais de Medicina, aliado a uma falta de acolhimento e continência aos aspectos emocionais dos próprios estudantes de Medicina e residentes, que mais tarde poderão reproduzir essa mesma falta em seus pacientes(3).

 

Qual o preceptor que quero para o meu médico residente?

 

Gilberto Freyre asseverava: “Separada da prática, a teoria é puro verbalismo inoperante; desvinculada da teoria, a prática é ativismo cego.”

 

• A Medicina é ciência e arte.

 

• Para se fazer Medicina é preciso ter curiosidade e compaixão.

 

• Para que esta prática possa ser aprendida devidamente é fundamental a presença constante de um preceptor.

 

• É preciso que ele fique junto com os estudante e residentes.

 

• Que ensine a postura do médico perante o paciente.

 

• Que ensine sempre a fazer uma anamnese e um exame físico perfeito.• Como deve se examinar o paciente com zelo, respeitando o pudor do paciente, que ensine a fazer, que mostre como fazer, que mostre como operar, e como escrever o que se faz.

 

• Quero um preceptor bondoso, sensível e humano.

 

• Quero um preceptor que seja humilde e estude sempre.

 

• Que não se surpreenda com as perguntas que não saiba responder.• Mas que vá buscar a verdade das respostas apesar de ser, às vezes, difícil achá-las.

 

• Que saiba socializar o seu conhecimento.

 

• Quero um preceptor que ampare os seus médicos residente nos momentos difíceis, mas que deixe que ele reconheça os seus limites.

 

• Quero um preceptor como Quíron que ensine ao médico residente a ser um verdadeiro cuidador.• Que sinta a dor que o paciente sente, apesar de não ser a sua dor.

 

• Se não for possível ao preceptor fazer tudo isto, que pelo menos não haja uma grande distância entre a intenção e o gesto médico.

 

(*) Professor Titular de Oncologia do curso de Medicina da FEPAR.

 

Referências

1. Cairus HF, Ribeiro Jr.WA. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

2. Hart DG. Aslepius, God of Medicine. Canadian Medical Association Journal 1965,92(5):232-236.

3. Silva GSN , Ayres JRCM. O encontro com a morte: à procura do mestre Quíron na formação médica. Revista Brasileira de Educação Médica 2010,34(4): 487-496

 

O QUE O PRECEPTOR QUÍRON PODE ENSINAR AO PRECEPTOR DA RESIDÊNCIA MÉDICA.

 

João Carlos Simões(*)

 

 

Píndaro (518-438 aC.) Em uma de suas odes, a III Pítica, menciona a doença que está minando a saúde de Hieron de Siracusa. Ali, relata a lenda do nascimento de Asclépio ou Esculápio.

 

Na Tessália, a bela Coronis, uma mortal, filha do lápita Flégias e irmã de Íxion, entregou- se amorosamente ao deus-sol Apolo e esperava um filho dele.

 

Antes de dar à luz, no entanto, ela teve uma aventura com Ísquis, a quem havia sido prometida. Apolo encolerizou-se ao saber da traição e matou Ísquis, e pediu à irmã, Ártemis, que matasse a amante infiel com uma flecha.

 

Apiedou-se, no entanto, da criança, e retirou-a do ventre da mãe (provavelmente a primeira cesariana dos deuses) antes que as chamas da pira funerária a incinerassem(1).

 

Apolo entregou Asclépio aos cuidados do preceptor Quíron. Este foi o responsável pela educação e criação do menino, com quem aprendeu todos os segredos da arte curativa com plantas medicinais.

 

O preceptor Quíron (em grego , Kheíron, “mão”) era um centauro, meio homem e meio cavalo, filho de relação adúltera entre Saturno (Cronos) e a ninfa Filira, e foi adotado por Apolo e Athena.

 

 Tendo recebido ensinamentos a respeito das artes, ciências, terapêutica e adivinhações, fundou o Quironion, templo de cura e de autoconhecimento. Lá se dirigiam as pessoas para aprender artes e ciências e curar-se das doenças do corpo e do espírito.

 

O deus Saturno, para se esconder da esposa Reia, se metamorfoseou em cavalo para se encontrar com Filira: dessa união nasceu o centauro, metade cavalo e metade homem.

 

Quíron foi abandonado pela mãe, que não se conformava com a criatura horrorosa que gerara. O pai fugiu e a mãe não quis saber dele. Imortal, por ser filho de Saturno, Quíron sobreviveu, tendo sido adotado por Apolo, que lhe ensinou diversas técnicas, artes e conhecimentos

 

Ele era o “centauro chefe” e o preceptor máximo, tanto das artes da sobrevivência, como da cultura, da filosofia, e passou a orientar e burilar o intelecto dos discípulos, ficando conhecido também por preparar os futuros heróis.

 

Quíron era ainda hábil no uso da medicina de ervas e plantas e em Astrologia. Ele tinha o poder de cura nas mãos, e o que não conseguia curar, ninguém mais conseguiria.

 

A arte de curador desenvolveu-se mais quando Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha envenenada de Hércules, que havia sido banhada no sangue da Hidra (sendo, portanto, venenosa), que causou em Quíron uma ferida incurável (quem sabe a primeira neoplasia maligna descrita).

 

Impotente para curar seu ferimento e não podendo morrer por ser imortal, ele começou a sofrer intensamente, recolhendo-se a uma gruta no monte Pélion onde, porém, continuou transmitindo seus conhecimentos aos discípulos.

 

Ao conviver com suas próprias dores e não morrer, talvez tenha ensinado a descobrir, em si mesmo, a dor que curava nos outros, aprofundando a sua sensibilidade em relação ao sofrimento e tratamento.

 

O “curador ferido” aparece em muitas das nossas palavras derivadas do grego antigo. A palavra kheir, que significa mão, compõe não somente o nome de Quíron e provavelmente significa “hábil com as mãos” (a forma antiga é Kheíron), mas também está no centro da representação das diversas palavras que servem para amplificar o arquétipo do centauro, como em quiromancia, quirografia, quiroprática e quirurgia, que veio a ser cirurgia (trabalho manual).

 

ASCLÉPIO ou ESCULÁPIO

 

Asclépio foi educado pelo preceptor Quíron, que era um educador bondoso e capaz de desenvolver as potencialidades dos seus discípulos. Ensinou ao aprendiz tudo sobre a arte de curar e aliviar as dores e doenças.

 

Quíron foi superado rapidamente por seu aprendiz. Asclépio encontrava remédio para todas as doenças, libertava as pessoas dos seus tormentos, salvando inclusive aqueles próximos da morte.

 

Como a arte de Asclépio chegou ao ponto de ressuscitar os mortos, Zeus, o principal deus do Olimpo, preocupado com a despovoação do Hades e a ordem natural das coisas, matou Asclépio com um raio, mas, em seu reconhecimento, levou-o aos céus e transformou- o em divindade.  Apolo colocou então o seu filho entre as estrelas, como a constelação do Serpentário (Ofiúco) (2).

 

O conhecimento do mito de Quíron representa a existência de modelos potenciais com os quais os nossos estudantes e médicos residentes possam se identificar na prática cotidiana da Medicina: o cuidador que tem compaixão.

 

Silva e Ayres(3) referem: “O mestre Quíron é o ideal desejado por eles exatamente por saber lidar com o próprio sofrimento e o do outro, conseguindo estar ao lado de seus discípulos e pacientes no adoecimento e na morte.”

 

O discurso de humanização da prática médica atual é bastante recorrente. A reumanização do processo de atendimento do paciente até a sua  morte e as interações dessas práticas são dificultadas pelo pouco suporte de ensino-aprendizagem nessa direção proporcionada pelos cursos atuais de Medicina, aliado a uma falta de acolhimento e continência aos aspectos emocionais dos próprios estudantes de Medicina e residentes, que mais tarde poderão reproduzir essa mesma falta em seus pacientes(3).

 

 

 

 

Qual o preceptor que quero para o meu médico residente?

 

Gilberto Freyre asseverava: “Separada da prática, a teoria é puro verbalismo inoperante; desvinculada da teoria, a prática é ativismo cego.”

 

• A Medicina é ciência e arte.

 

• Para se fazer Medicina é preciso ter curiosidade e compaixão.

 

• Para que esta prática possa ser aprendida devidamente é fundamental a presença constante de um preceptor.

 

• É preciso que ele fique junto com os estudante e residentes.

 

• Que ensine a postura do médico perante o paciente.

 

• Que ensine sempre a fazer uma anamnese e um exame físico perfeito.• Como deve se examinar o paciente com zelo, respeitando o pudor do paciente, que ensine a fazer, que mostre como fazer, que mostre como operar, e como escrever o que se faz.

 

• Quero um preceptor bondoso, sensível e humano.

 

• Quero um preceptor que seja humilde e estude sempre.

 

• Que não se surpreenda com as perguntas que não saiba responder.• Mas que vá buscar a verdade das respostas apesar de ser, às vezes, difícil achá-las.

 

• Que saiba socializar o seu conhecimento.

 

• Quero um preceptor que ampare os seus médicos residente nos momentos difíceis, mas que deixe que ele reconheça os seus limites.

 

• Quero um preceptor como Quíron que ensine ao médico residente a ser um verdadeiro cuidador.• Que sinta a dor que o paciente sente, apesar de não ser a sua dor.

 

• Se não for possível ao preceptor fazer tudo isto, que pelo menos não haja uma grande distância entre a intenção e o gesto médico.

 

(*) Professor Titular de Oncologia do curso de Medicina da FEPAR.

 

Referências

1. Cairus HF, Ribeiro Jr.WA. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.

2. Hart DG. Aslepius, God of Medicine. Canadian Medical Association Journal 1965,92(5):232-236.

3. Silva GSN , Ayres JRCM. O encontro com a morte: à procura do mestre Quíron na formação médica. Revista Brasileira de Educação Médica 2010,34(4): 487-496

 

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