Logo Escolas Médicas

Artigos & Matérias

ATITUDE - de 22 médicos (de Caxangá) da unidade administrada pelo Maria Lucinda

20/09/2015

Boa tarde,
 
Bem, sou Magno, um dos 22 médicos que pediram demissão da unidade
administrada pelo Maria Lucinda.
 
Na última quarta feira, dia 16, houve uma reunião entre os coordenadores e
todos os médicos do serviço com a intenção de discutir as deficiências da
unidade e esclarecer o que havia acontecido quatro dias antes: a restrição
do atendimento visando o atendimento adequado daqueles pacientes
considerados graves, visto que a unidade apresentava situação crítica por
falta de insumos (chBegamos a abrir o carrinho de parada para fazer glicose

em uma paciente com hipoglicemia, pois não havia ampolas de glicose no
serviço; havia paciente com tuberculose em fonte de oxigênio, e não
existiam máscaras brancas simples para a evolução diária).
 
A Upa da caxangá é uma unidade que faz uma produtividade medica de cerca de
11 mil atendimentos mês (além de uma quantidade de pacientes que entram e
não são atendidos pq não suportam esperar o atendimento pela alta demanda).
A unidade é a que mais atende pacientes classificados como vermelhos
(graves) no estado e é reconhecida pelo samu e corpo de bombeiros como
unidade de excelência na região metropolitana.
 
Atendemos Recife, Camaragibe, muitas vezes Abreu e Lima, Paulista, e por
vezes pacientes oriundos de Olinda, Boa Viagem e outras áreas distantes da
unidade. A unidade também recebe esporadicamente paciente "encaminhados" do
interior do estado e pacientes de outras unidades de menor complexidade que
são encaminhados para realização de ecg, raio-x e marcadores de necrose
miocárdica que no fim das contas também se tornam nossos pacientes.
 
Toda essa complexidade era manejada com a atenção de 4 médicos clínicos,
uma diarista (por 4 dias na semana), 2 ortopedistas e 2 pediatras (este
número já foi reduzido em ortopedistas e não possuía mais diarista há dois
meses. A diarista encontra-se sob licença maternidade mas após seu retorno
não haverá diarista na unidade).
 
Após sucessivas reuniões com as coordenações médicas e de enfermagem sobre
os motivos que sempre levaram a faltas pontuais de insumos e atrasos de
salário, aconteceu esta última reunião na quarta, dia 16, quando a direção
do Maria Lucinda apresentou um plano de recuperação financeira da unidade,
que incluía a diminuição de mais 1 médico clínico nos plantões diurnos e
noturnos e 1 pediatra nos plantões noturnos. Além disso, o plano contava
com a necessidade urgente do aumento no número de atendimentos, afim de
atingir uma meta prevista em contrato com a SES (como deveria acontecer em
todas as UPAS). Meta esta que sempre foi alcançada com facilidade e que,
por diminuição espontânea da demanda no último mês e pela necessidade do
atendimento a pacientes apenas graves por falta de insumos básicos por
cinco dias, estava ameaçada para o mês de setembro.
 
É bom deixar claro que durante todos os anos de funcionamento do serviço (e
existem profissionais que trabalham na unidade desde sua abertura),
excetuando-se um dia em que houve uma paciente africana na unidade com
suspeita de ter contraído ebola, NUNCA a Upa da caxangá restringiu
atendimentos. Nunca deixamos de atender troca de curativos, renovação de
receitas de anti hipertensivos de uso contínuo, lombalgias de longa data ou
qualquer outro atendimento que deveria ser feito estritamente em nível
ambulatorial. Sabemos o pouco que o SUS oferece de saúde básica de
qualidade e o quanto ainda é defasada no nosso estado e no país. Nunca
fugimos da responsabilidade com os nossos pacientes!
 
Dentro de uma discussão sobre a dificuldade de atingir as metas do mês
corrente em decorrência da falta de insumos básicos um administrador nos
mostrou um documento que relatava que existia mais de 100 ampolas de
glicose na unidade, como se a equipe médica e de enfermagem fossem
responsáveis pela ingerência desses insumos (lembram que as ampolas não
existiam durante na unidade como falei anteriormente?). E mais, quando
outro médico da equipe relatou que foi informado que só havia poucas
ampolas de adrenalina na unidade (não lembro ao certo, mas acho que em
torno de 10, um dos gestores vociferou que "medicina se faz com
criatividade" e reafirmou o absurdo que foi restringir o atendimento apenas
a pacientes graves.
 
Que fique mais claro ainda que em nenhum momento os atrasos de salários de
todos os profissionais da unidade foi alvo da discussão. Durante a reunião
falamos sucessivas vezes sobre o quanto o serviço se tornaria subumano para
os pacientes e extremamente insalubre para todos os profissionais. Se com a
equipe completa já ocorreram agressões à equipe médica, enfermeiras
sofreram ameaças, portas de consultórios quebradas, como seria agora?
 
Aliás, como ficaria a situação dos pacientes? Desde aquele senhor de 60
anos com lombalgia crônica até o paciente intubado esperando vaga em uti,
neurológicos esperando macas por dias, e dependentes de oxigênio esperando
fonte em uma emergência de um hospital que possa oferecer manejo clínico e
investigação diagnóstica adequados.
 
Decidimos, durante a reunião, não compactuar com tal absurdo. Lutamos para
oferecer uma medicina de qualidade apesar da necessidade do atendimento de
uma demanda altíssima de pacientes. Não aceitamos e não aceitaríamos que os
pacientes sofressem ainda mais com a má gestão do sus! Novamente, não mais
do que já sofrem.
 
A demissão de 22 dos 25 médicos clínicos da Upa da caxangá foi uma
tentativa de unir a classe em torno da profissão, sim, mas não deixem de
entender o contexto maior...
 
A equipe acredita que durante muito tempo a direção do hospital Maria
Lucinda tentou oferecer um atendimento de qualidade, dentro de suas
possibilidades, a população.
Acreditamos que a pressão dos gestores em tempos de crise tem feito muita
gente esquecer nosso maior objetivo: o compromisso com a nossa profissão e
com o paciente.
 
O dinheiro desviado por esquemas de corrupção descobertos recentemente
seriam capazes de construir 10 escolas elementares em cada cidade do país!
O governo quer aumentar impostos, quer o retorno da cpmf e aumento da
alíquota do imposto de renda para cobrir 30 bilhões de reais de rombo no
seu orçamento enquanto compra carros novos para cada deputado e mantém os
39 ministérios que custam 400 bilhões de reais por ano.
 
Não queremos discutir sobre partidos políticos, posições partidárias nem
nada desse tipo. Queremos discutir sobre a população que sofre diariamente
com esses desmandos dos nossos representantes e gestores.
 
Queremos que a classe médica abra os olhos para a profissão, para a
qualidade da saúde e para os pacientes. E aqui não importa qual parcela da
população pode refletir sobre isso. Escolhemos servir de exemplo e com
certeza muitos entenderão.
 
No dia 16 de setembro os 22 médicos da Upa da caxangá pediram demissão.
 
Sempre fomos uma família. Comemoramos aniversário juntos, rimos juntos e
sofremos juntos perdas de pacientes e a condição da saúde pública do nosso
país.
 
No dia 16 de setembro de 2015, em meio a tristeza e lágrimas de alguns
profissionais, decidimos continuar, juntos novamente, dessa vez tentando
abrir os olhos da sociedade.
 
Magno Camelo, Medico UPA Caxanga (texto expressando opinião pessoal apesar
do sentimento semelhante existir na quase totalidade dos 22 médicos).

enviar para amigo >>  
compartilhe >>
voltar

deixe sua opinião

Médicos, Residentes, Professores, Coordenadores de Escolas Médicas

clique aqui

Estudantes,
Acadêmicos de Medicina

clique aqui

NEWSLETTER

Nome:
Email:

EscolasMedicas.com.br © 2010

Logo Hidea