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Saúde na Amazônia

Para ribeirinho da Amazônia, saúde é igual à loteria

27/05/2008 14:58:49

Para ribeirinho da Amazônia, saúde é igual à loteria.

Terça, 27 de maio de 2008


No Vale do Guaporé, pacientes viajam até quatro dias para buscar socorro em Guajará-Mirim. Faltam médicos.

MONTEZUMA CRUZ
\n montezuma@agenciaamazonia.com.br

GUAJARÁ-MIRIM, RO – Da portaria à enfermaria, a sorridente Marlene Avansi cumprimenta as pessoas, ouve relatórios e toma conhecimento da situação dos pacientes do Hospital Bom Pastor, vinculado à Diocese. A freira médica vai à enfermaria e quer saber o estado de saúde de uma jovem índia Pakaa-nova. Às 7h30 da manhã ela retorna ao grande corredor cheio para verificar os pacientes de especialidades. Eles terão que aguardar vez e dia de atendimento. Anota, conversa, sorri. Esta é a rotina da diretora que saiu de São Paulo há dez anos para se dedicar a um hospital de fronteira.

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Às 7h30, Marlene conversa com índias no corredor do Hospital Bom Pastor /M. CRUZ

Resigna-se com as dificuldades e procura sempre um jeito de dizer sim aos pacientes, entre os quais índias do Vale do Guaporé que procuram a maternidade e são internadas. Nesta cidade de 42 mil habitantes da fronteira Brasil-Bolívia falta médicos para socorrer casos de infecção respiratória, mortes maternas, mortalidades e pacientes de visão. Os que têm condições mínimas para passar o dia em território boliviano, embarcam numa catraia e atravessam o Rio Mamoré, para chegar às clínicas de Guayaramerin (Departamento do Beni). Ali, com R$ 150 consultam a vista e voltam de lá com os óculos.


Anestesista ganha R$ 20 mil

Apenas um anestesista recebe salário mensal de R$ 20 mil para trabalhar 40 horas semanais, dividindo a jornada com o Hospital Regional, o segundo de Guajará-Mirim. “Ele não tem muito sossego”, comenta Marlene. Maternidade e cirurgias gerais exigem que o profissional ultrapasse o tempo de atividade previsto. No ano passado, o concurso público municipal não preencheu as vagas. Nem o segundo concurso atendeu às necessidades. O hospital abriga generalistas.

Entre os pacientes dos leitos e do corredor encontrados pela Agência Amazônia no dia da visita, alguns sofriam de leishmaniose, hanseníase, tuberculose e hepatite, ainda muito comuns na região. No Hospital Bom Pastor são feitas pelo menos três cirurgias de emergência por semana.

Longas viagens

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O casal chega com o filho e a bagagem /M. CRUZ

O município é muito grande e os pacientes vêm de lugares distantes, ao longo dos rios, até dois dias de distância da cidade. Ninguém desiste. Uma paciente de tuberculose viajou quatro dias num barco para ir fazer o diagnóstico da doença. A difícil locomoção dos doentes e a defasada tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) desafiam Marlene.


Médicos vêm de Porto Velho


A Secretaria Municipal de Saúde fornece mensalmente 140 autorizações de internamento hospitalar (AIHS). Nesse ritmo, médicos psiquiatras para o Centro de Atendimento Psicossocial estão entre as lacunas do Bom Pastor. “É só uma vez por semana”, conta Marlene. A exemplo de outras de Rondônia, Guajará-Mirim atende a pacientes de drogas, bebidas alcoólicas, e problemas mentais de diferentes origens. “Neurologista e otorrinolaringologista vêm da capital”.

Porto Velho fica a 362 quilômetros de distância”, ela lembra.Uma operação cesariana custa R$ 500 no hospital, incluindo os procedimentos, medicamentos e o trabalho do anestesista. Só que as contas não fecham e o que ameniza a situação são os convênios firmados com o Exército Brasileiro e a Unimed. “Eles ajudam a gente a sair do poço quase sem fundo”, alegra-se. Juiz e promotor encontram facilidades de trabalho na fronteira. Conseguem até moradia e outras benesses. Têm perspectivas de carreira. Com o médico é diferente. Estima-se que 75% dos 186 milhões de brasileiros recorrem ao SUS. Apenas 40 milhões têm plano de saúde. Guajará-Mirim não é diferente dos demais retratos da saúde pública brasileira.

Uma vez mais, Exército socorre a região

GUAJARÁ-MIRIM, RO– O País tem 319 mil médicos e pouquíssimos escolheram áreas de fronteira para trabalhar. Guajará-Mirim vê a concentração desses profissionais em grandes centros, a exemplo dos mais de mil municípios brasileiros sem médicos, dos quais, 200 ficam na fronteira amazônica brasileira com a Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela. Embora sejam aproveitados em mutirões de saúde no interior, em Rondônia, os profissionais formados em universidades da Bolívia ainda são rejeitados.

Um paradoxo: médicos formados em Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra, lá submetidos à prova de grau que os habilita a exercer a profissão, são impedidos legalmente de trabalhar. Após a formatura, eles retornam ao Brasil, onde ficam reféns da revalidação do diploma em universidades federais. As provas são excludentes e pela simples inscrição eles pagam acima de R$ 5 mil. Nos últimos seis anos, grande parte gastou até R$ 20 mil para fazer as provas em diferentes regiões. Os valores variam em cada universidade e não são fiscalizados pelo Procon.

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Pacientes de visão atravessam o rio Mamoré para visitar clínicas bolivianas

Marinha dá assistência

Na Amazônia, a chamada Força Terrestre da Defesa vem montando hospitais de campanha e promove atendimento médico com o uso de embarcações de assistência hospitalar. Há 15 dias, por exemplo, a tripulação do navio Oswaldo Cruz encerrou o atendimento a 20 comunidades ribeirinhas do Vale do Javari, com um total de 4,7 mil procedimentos, conforme relatório do 9º Distrito Naval em Manaus.

O Conselho Federal de Medicina atribui o déficit de médicos “à falta de uma política de promoção da classe”. Uma vez mais, o Ministério da Saúde apela ao Exército e à Marinha. A negociação entre os ministérios da Saúde e da Defesa implica a assistência direta a 20% das cidades que não dispõem de médicos fixos. Ainda não se definiu o volume de recursos a serem empregados. Tudo vai depender da decisão do Congresso Nacional a respeito de uma possível criação de um novo “imposto da saúde”. Quer dizer: não há certeza de nada.

Salário para médico iniciante é de R$ 6 mil

GUAJARÁ-MIRIM, RO — Municípios fronteiriços acumulam exemplos de situações mal resolvidas. As prefeituras anunciam o pagamento de salários acima de R$ 6 mil mensais para o médico iniciante. Algumas lhe oferecem casa e até viagens aos que decidem assumir uma jornada de quatro horas por dia do SUS. Exemplos de abnegação são lembrados em Guajará-Mirim: no final da década de 1970, o padre médico Fernando Alexandre Bendoraitis, diretor do Hospital Bom Pastor e organizador da Aldeia Indígena Sagarana, atravessou o rio numa barca e foi atender aos próprios brasileiros num hospital em Guayaramerin, no Beni.

Até agora, os hospitais não têm como recusar atendimento aos bolivianos sem recursos que diariamente buscam socorro e se misturam aos rondonienses na fila do SUS. Alguns profissionais rompem barreiras. É o caso do médico francês Gilles de Catheu, o Gil, formado em Paris. Em 25 anos de atividade na região ele deixou diversas vezes o consultório para formar dezenas de índios agentes de saúde. Eles atuam em 22 aldeias da região.

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"O Exército nos tira do poço", diz Marlene

Funasa recebe um presente

O treinamento periódico lançado por Catheu foi retomado pela Fundação Nacional de Saúde. O bispo diocesano Dom Geraldo Verdier lembra que de Catheu constatou, “por intuição”, um surto de tuberculose entre crianças. Uma semana ou 15 dias de lancha voadeira e barcos. Nesse tempo, os ribeirinhos de diversas comunidades isoladas na selva conseguem chegar à cidade. Na época do Território Federal, eles usufruíam do Serviço de Navegação do Guaporé, que se transformou em Empresa de Navegação de Rondônia e encerrou as atividades com prejuízos.

Recentemente, durante dois anos e meio em convênio com a Fundação de Assistência Social do Estado, a Diocese assumiu o transporte fluvial. “Provamos que os recursos liberados eram suficientes para custear o funcionamento do barco, alimentação gratuita e a passagem. A cada mês viagem sobravam mil litros de combustível e os próprios usuários notaram o paternalismo”, conta o bispo.

Com isso, eles decidiram contribuir com pequenas importâncias, a partir de R$ 3, para pagar simbolicamente a viagem. Atualmente, o serviço funciona com administração de uma instituição evangélica. Não há outro jeito para transportar quem precisa de socorro médico e mora nos confins do Guaporé.

Fonte: Montezuma

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