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Saúde na Amazônia

Socorro para os povos da floresta acriana

19/02/2009 22:58:49

 

Socorro para os povos da floresta acriana


Socorro para os povos da floresta acriana19/02/2009

Falta atendimento nas aldeias 

Foto: Sérgio Vale

 

Kaxiana

         Os povos da floresta do Acre, particularmente os índios, comem mal, não têm saneamento básico, adoecem de hepatite e suas crianças apresentam subnutrição crônica porque até um ano de idade só tomam o fraco leite do peito das mães. Esse é o quadro social da maioria dos indígenas daquele estado, que se embriagam nas cidades com o dinheiro de aposentadorias e do Bolsa Família. Leiam mais sobre o assunto em artigo do jornalista Romerito Aquino, editor da Kaxiana.

SOS para os povos da floresta acreana

Romerito Aquino (*)

         Em três de fevereiro passado, em sua mensagem anual à Assembléia Legislativa, o governador do Acre, Binho Marques, reconheceu que “o Acre, pela sua história, por ser o extremo oeste da Amazônia, por ter comunidades isoladas, tem, também, os piores indicadores sociais na educação, na saúde...” Tem muita razão o jovem governador acriano. Essa situação pode ser constatada atualmente no interior do estado entre os seringueiros, ribeirinhos e, particularmente, entre os cerca de 15 mil índios das centenas de aldeias do estado.

          Em outubro passado, estive na aldeia Nova Esperança, dos índios Yawanawá, a 10 horas de barco subindo o belo rio Gregório, município de Tarauacá, a 380 km de Rio Branco. Ali, uma equipe de médicas do programa Saúde Itinerante não conseguia esconder seu espanto pelo quadro negativo que encontrara na área da saúde entre as centenas de índios que moram na aldeia – a maior daquela etnia - ou em suas cercanias. Os poucos dias que trabalharam no local foram suficientes para as profissionais de saúde diagnosticar, por exemplo, que todas as crianças indígenas de até um ano de idade tinham subnutrição crônica. Ou seja, passavam fome. Além disso, era "elevada", segundo as doutoras, a incidência de hepatite entre os adultos e jovens da aldeia.

         Além dos diagnósticos, as médicas também deram as devidas explicações para um quadro de saúde tão desfavorável a uma população que vive na região da mais rica e mais bela floresta tropical do mundo. A subnutrição dos bebês indígenas se devia, de acordo com elas, ao fato das mães darem a eles apenas o leite do peito. E a hepatite era originada principalmente pela quase total falta de saneamento básico na aldeia, com ausência de água tratada e de depósitos sanitários. Em minha passagem por aquela aldeia, pude presenciar, em vários momentos, bandos de urubu rodeando a aldeia, talvez muito em função das vísceras de bois e animais de caça que os índios costumam largar no início dos varadouros próximos às suas casas.

         As doutoras também falaram sobre o que poderia ser feito para evitar ou amenizar aquele quadro de saúde tão desfavorável. A fome dos bebês, que a tornam vulneráveis a muitas doenças e até óbitos, poderia ser contornada com alimentos à base de castanha, peixe, banana e outras frutas regionais existentes na aldeia ou próxima a ela. Ou seja, nada que a passagem de uma nutricionista na aldeia, por alguns dias não resolva o problema, educando mulheres, homens, jovens e crianças sobre a importância protéica de cada um dos alimentos disponíveis dentro da floresta tão biodiversa. A hepatite e outras doenças transmitidas por falta de saneamento básico também poderiam ter fim ou serem reduzidas com uma pequena estação de tratamento de água e a construção de unidades sanitárias em cada uma das casas da aldeia.

         Em termos de indicadores sociais, uma curiosidade, no entanto, salta aos olhos de quem visita a Nova Esperança, que tem realizado anualmente as fascinantes pajelanças de seu Festival de Música, Dança e Espiritualidade Yawanawá, mais conhecido como Yawá, uma das mais belas manifestações culturais do Acre, da Amazônia e do Brasil. Trata-se da existência, no centro da aldeia, de um moderno conjunto interligado de ocas destinado à educação e atividades culturais, que contrasta com a quase absoluta ausência de saneamento básico na aldeia.

         O mais preocupante dos baixos indicadores de saúde, constatados na aldeia Nova Esperança é que eles ocorrem justamente numa das etnias mais organizadas hoje no Acre. Pelo que sei e pelo que conheci, andando nos últimos anos por algumas aldeias acrianas, o "povo da Queixada" (o significado de Yawanawá) forma com os Ashaninkas, do rio Amônia, de Marechal Thaumaturgo, os povos indígenas mais estruturados do estado, dispondo, em suas aldeias, de escolas, computadores com internet, telefone, barcos a motor e outros instrumentos de uso comunitário. O que dizer, então, da saúde e da vida alimentar de outras etnias indígenas do estado?

         Em 2004, estive percorrendo, no rio Jordão, no município do Jordão, várias aldeias dos Kaxinawá - o grupo mais numeroso do estado – formadas por índios que já possuem aposentadorias dos tipos Funrural e Soldado da Borracha e benefícios do (recente) programa Bolsa Família. Ali, acompanhado de uma equipe da TV Nacional (hoje EBC), pudemos perceber a grande carência alimentar e a palidez presente nas crianças, jovens e velhos, que se sustentavam apenas de mudubim (amendoim), banana e mandioca, com ausência de produção de qualquer tipo de legume ou verdura.

         Não é a toa que, há pouco tempo, estudos atribuídos à Universidade Federal do Acre (Ufac) indicavam que duas das aldeias Kaxinawá apresentavam os mais elevados índices de subnutrição crônica entre as aldeias indígenas amazônicas. Some-se a isso o fato de o município do Jordão como um todo ter um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do Brasil.

         Diante de todo esse quadro de carências das aldeias acrianas, extensivo certamente às centenas de comunidades dos demais povos da floresta, como seringueiros e ribeirinhos, que vivem espalhados pelos muitos rios do estado, é de se perguntar: o que fazer para cuidar de sua saúde e de sua educação, evitando que eles continuem demandando atendimentos crescentes em hospitais, centros e postos de saúde das cidades? Trata-se de uma pergunta que, certamente, as prefeituras, o governo do estado e o governo federal podem muito bem responder caso se unam em ações concretas e objetivas, que podem muito bem quebrar esse perverso paradoxo da existência de um povo doente e mal alimentado em pleno coração da floresta de maior biodiversidade do mundo.

         É de se ressaltar que a solução para esses problemas não passa pela ampliação da concessão dinheiro para índios através de programas assistenciais ou, visto que tal experiência tem se transformado, no Acre, num sério problema social e numa ameaça constante de desagregação de povos que sempre viveram em comunidades dentro da floresta. O que vem ocorrendo com os índios das etnias Jaminawa, Kulina, Manchineri e Kaxinawá, dos municípios de Sena Madureira e de Manuel Urbano, é um grande exemplo dessa terrível ameaça de desagregação.

         Ao se deslocarem para a cidade a fim de receberem suas aposentadorias, esses índios, cuja maioria já deixou de plantar e pescar, acabam gastando todo dinheiro em bares da periferia da cidade, transformando-se, depois, num exército de miseráveis vivendo em palhoças nos barrancos do rio da cidade. Abandonadas nas aldeias, suas mulheres e filhas pequenas se vêem, então, obrigadas a também irem para a cidade, tendo que sobreviver à custa da prostituição e até do tráfico de drogas, com todos deixando para trás um crescente vazio nas terras indígenas, duramente reconquistadas em passado recente, e transformando suas vidas num progressivo caos social. O padre Paolino Baldassari, de Sena Madureira, não cansa de alertar as autoridades para esse desastre social naquela região acriana.

         "Dar dinheiro para índio é colocar uma bomba atômica no colo dele", me disse recentemente o índio Joaquim Tashka Yawanawá, ao falar dos benefícios financeiros que estão se ampliando no Acre para índios de várias etnias. Vale lembrar o risco de se dar dinheiro até para certas organizações indígenas, a partir da descoberta recente, pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e outros órgãos federais, do sumiço de cerca de R$ 6 milhões da Funasa (Fundação Nacional de Saúde), que deveriam ter sido destinados à melhoria da saúde dos índios, mas foram desviados, entre outros, pela União das Nações Indígenas (UNI), uma ONG formada pelos próprios índios. Neste caso, é preciso operar com lideranças indígenas honestas e sérias.

         Assim, no caso dos índios do Acre e do restante da Amazônia, não se aplica sequer o velho ditado popular que diz que não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. Eles já conhecem todo esse processo e o que precisam, urgente, é de apoio institucional que os orientem e que lhes permitam executar projetos econômicos que gerem renda dentro das próprias aldeias a partir de seus valorosos conhecimentos tradicionais sobre importantes riquezas existentes na floresta, tais como plantas, cascas de árvore, ervas, sementes, essências, frutas e a produção de seus belos artesanatos, entre outras.

(*) Jornalista.

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