Escolas Médicas do Brasil

O ensino:valorização das Faculdades de Medicina

 02/09/2008

 

 

 
 

  
Arq. Bras. Oftalmol. vol.64 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2001
EDITORIAL

O ensino: valorização das Faculdades de Medicina

 

Adalmir Morterá Dantas *

 

 

A importância que a ciência assumiu nesta Era de Descobrimento Científico, como instrumento de domínio político ou desbravamento de regiões inóspitas, pode ser salientada por alguns fatos de extrema importância que ocorrem no mundo, atualmente. Alguns desses acontecimentos são deploráveis e traduzem antes o grau de inadaptação das forças políticas ao uso de um instrumento que, até bem pouco tempo, lhes era totalmente estranho. O que a muitos pode parecer sinal de decadência de uma civilização baseada na técnica, não significa mais do que a sua infância, evidenciada pela insegurança com que a política ensaia a utilização de métodos e meios positivos de progresso, de cuja existência nunca suspeitara.

Todo sucesso na vida dos povos, seja na guerra, seja na paz, depende da nossa cultura geral e de nosso treino intelectual, isto é, do ensino. O povo que descuida do ensino, não só prejudica sua própria mocidade, mas condena-se a si mesmo.

Discute-se a possibilidade de melhorar o ensino. Em inteligência e aplicação os estudantes brasileiros não são inferiores, antes superiores, aos de outros países. Naturalmente, não pode esperar que a disciplina seja boa em aulas de baixo nível, uma vez que os estudantes são também dotados de discernimento. Com esse material humano, o Brasil poderia ir longe, não fosse o nível atual do ensino.

Ao entrar na Faculdade de Medicina, os estudantes mostram, infelizmente, grande falta de preparo adequado. Embora saibam muitas vezes grande quantidade de matéria decorada, falta-lhes a base sadia e o raciocínio próprio.

É desanimador ver que os mesmos jovens que começaram os seus estudos, alegres, vivos e curiosos, terminam a sua carreira, tristes, cansados, sem estímulo e sem conhecer o prazer que nos dão os conhecimentos verdadeiros. Isso tudo é tão conhecido que não é preciso insistir. A culpa é da forma atual do ensino.

O ensino não faz o que deve, mas ao ouvir a fala dos professores, percebe-se que a culpa é dos programas escolares, ou de deficiências de verba, ou de instabilidade da administração, etc. Tudo isso pode ser verdade. Existe sempre o fato de que, com a melhor compreensão das autoridades e mesmo com melhores programas e maiores verbas, um mau professor nada poderia fazer. E, na falta de todas essas condições, um bom professor ainda pode fazer algo. Cabe, por isso, aos professores ver o que se pode fazer para melhorar a situação.

É difícil, senão impossível, dar algumas receitas gerais sobre como deveria ser um bom ensino. Porque ensinar é uma arte e como tal não obedece regras gerais: o ensino deve se harmonizar com a individualidade do professor, como também com a dos alunos. As qualidades inatas ou elementares que o bom professor possui são o amor à ciência, amor aos alunos e bastante imaginação para se transferir para a mentalidade deles, precisa também de boa dose de sociabilidade e mesmo de humor.

O mais importante, porém, é o domínio da matéria que se quer ensinar. Esse domínio, para o professor é mais importante do que todos os métodos que a Pedagogia pode ensinar.

Sem dúvida, o professor pode, mesmo sem recursos e sem auxílio de fora, melhorar o ensino por iniciativa própria.

Naturalmente, uma boa administração e bons programas poderiam fazer muito, mas os professores têm, também, que entender que os administradores de hoje passaram pelas escolas de ontem e que a sua atitude e o interesse que têm pelas escolas são, em grande parte, o resultado e o reflexo das suas próprias experiências durante a época escolar. Nas mãos dos professores estão os administradores de amanhã.

É importante, também, lembrar que em 1962 havia vinte e cinco faculdades de Medicina em todo Brasil: Faculdade de Medicina da Universidade de Alagoas; Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia; Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública; Faculdade de Medicina da Universidade do Ceará; Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil; Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado da Guanabara; Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro; Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais; Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Católica de Minas Gerais; Faculdade de Medicina de Juiz de Fora; Faculdade Federal de Medicina do Triângulo Mineiro; Faculdade de Medicina da Universidade do Pará; Faculdade de Medicina da Universidade da Paraíba; Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná; Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná; Faculdade de Medicina da Universidade do Recife; Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco; Faculdade de Medicina da Universidade do Rio Grande do Norte; Faculdade de Medicina de Porto Alegre da Universidade do Rio Grande do Sul; Faculdade de Medicina de Santa Maria da Universidade do Rio Grande do Sul; Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro; Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Escola Paulista de Medicina; Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; Faculdade de Medicina de Sorocaba da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Atualmente, não se sabe o número real de Faculdades de Medicina, porque a cada ano aumenta a quantidade.

A Universidade tem por objeto criar e ensinar os conhecimentos. Estas duas funções conexas se entrelaçam, a de investigação e do ensino. Todo professor deve investigar, só assim terá juízo próprio, saberá o que diz e ensinará bons métodos.

A base de toda Universidade, além de ensinar, é a investigação. Assim o professor deve ser um investigador incansável e desinteressado. Ele deve ter independência de juízo, perseverança no estudo, paixão pela glória, patriotismo, gosto pela originalidade científica.

O investigador deve ter cultura geral, especialização, técnica, como tratar as monografias, inspiração na natureza, domínio dos métodos, a procura pelo fato novo.

A pergunta importante é se todas as Faculdades de Medicina do Brasil, estão preparadas para ensinar uma medicina como deveria ser ensinada.

Em qualquer instituição, especialmente as destinadas ao ensino, o pessoal é o fator de primordial importância. Na Universidade pouca importância têm os prédios suntuosos, as instalações de luxo, o equipamento moderníssimo e caro, se não houver pessoal cuidadosamente preparado, capaz de realizar as tarefas básicas - ensinar, educar e pesquisar.

É de importância muito maior, o pessoal de boa categoria, embora dispondo de instalações modestas e equipamentos deficientes.

É evidente que, em virtude do enorme crescimento do Brasil, torna-se necessário o aumento do número de professores de boa qualidade, no campo da Medicina.

A necessidade de um número maior de médicos implica, sem dúvida, na ampliação da capacidade das Faculdades de Medicina, mas isso deve ser feito dentro de um rigoroso espírito universitário, considerando, em primeiro lugar, a preparação cuidadosa do pessoal docente. A improvisação de professores, a instalação de novas Universidades ou Faculdades, levando em conta o critério político e a amizade pessoal, sem considerar a preparação de professores e as condições do meio, constitui um erro gravíssimo, infelizmente, cometido freqüentemente no Brasil.

Um professor sem o devido preparo, não é somente o mestre deficiente, mas sobretudo, nocivo, porque ensina mal ou errado às gerações sucessivas, durante períodos longos de 20 a 30 anos. Esses males disseminam-se, e suas conseqüências terão as piores repercussões. A qualidade do ensino e o seu padrão ético são os alicerces da preparação do médico, cuja influência social é muito profunda e extensa.

Um problema muito sério que se apresenta nas universidades é, sem dúvida, o do estudante. No Brasil, os estudantes procedem de camadas sociais as mais diversas e carregam sobre os ombros, grandes problemas de ordem econômica, emocional e social.

O mestre deve ter interesse especial pelo estudante, compreendendo antes de tudo que a Universidade é a sua casa. Deve cuidar do seu desenvolvimento emocional e orientá-lo em sua formação.

O professor de Medicina moderno, tem de ser um cientista, um humanista e nunca se deixar deslumbrar pelo especialismo extremado. Para ensinar, orientar, transmitir estímulos, ele deve estar perfeitamente preparado nos domínios gerais da ciência, no setor de sua especialidade e nas normas fundamentais do comportamento do homem, nas comunidades. Somente assim ele será um verdadeiro professor universitário.

Devemos salientar, que as novas escolas não foram criadas de acordo com um programa pré-estabelecido. Realmente, a organização de tais escolas não foi acompanhada do necessário programa de treinamento intensivo de professores e assistentes para as novas posições, apesar do esforço importante do Conselho Nacional de Pesquisa do Brasil (criado em 1951) e da Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (criada, também, em 1951), que tem dotações orçamentárias muito limitadas.

A administração pública, a evolução, o progresso, o estabelecimento das leis das sociedades humanas, não prescindem da ciência e não podem escapar da supervisão da cultura. É uma realidade da época atual.

É indispensável que os governantes procurem o apoio, o suporte das universidades, as quais, se devidamente equipadas e dispondo de pessoal adequado, poderão participar, efetivamente, do desenvolvimento do país.

Se as Faculdades de Medicina são apenas agrupamentos de profissionais de má qualidade não poderão fornecer professores suficientemente capazes e os problemas ficarão ao laisser faire da era pré-científica. A preparação de professores deve ser planejada, considerando a função social, as tendências sociais e as realidades contemporâneas.

O aumento do número de Faculdades de Medicina e o preparo não adequado de professores não serão úteis ao país.

A qualidade de novas Faculdades de Medicina em diversas regiões do país, é ainda insatisfatória.

O crescimento da ciência no Brasil é um exemplo de um esforço empregado por um pequeno número de pesquisadores.

Ao Governo tem faltado a iniciativa para enfrentar com resolução o problema educacional e de dinamizar a sua ação no setor da Ciência e da Tecnologia.

 

 

* Professor titular de Oftalmologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ.