Escolas Médicas do Brasil

A Medicina deve ser sempre fonte de alívio, de conforto - por Edson de Oliveira Andrade

 29/03/2009

 

 

Opinião


“A Medicina deve ser sempre fonte de alívio, de conforto”

Entrevista - EDSON DE OLIVEIRA ANDRADE

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Edson Andrade: O médico continua sendo mal remunerado, não tendo um plano de carreiras no SUS e isso é em todos os Estados (Foto: Igor Grazianno)

"A nossa obrigação é dar acolhimento, conforto, alívio às pessoas nos momentos finais de vida"

"Nosso contato com o ser humano se dá numa dimensão diferente do que qualquer outra profissão"

 

Terminou, na última sexta-feira, a 2ª Conferência Nacional de Ética Médica, que revisou o código profissional há 21 anos sem atualização, enquanto no mundo esse tempo é de apenas cinco anos. Nesta entrevista, o presidente do CFM, fala de assuntos polêmicos e desafia gestores

O Código de Ética Médica tem 21 anos. O Conselho está trabalhando na revisão?

Nós fechamos o Código do Processo Ético Profissional, que é a norma processual, aquela que organiza o processo. Nós já estamos num processo bem avançado de discussão do Código de Ética Médica, ser definido na Conferência Nacional de Ética Médica. Foi feita consulta pública, com reunião em diversos estados, foram mais de três mil contribuições somente na Internet, não apenas de médicos. É óbvio que não são três mil contribuições diferentes, há uma superposição de temas.

Quais seriam os temas mais recorrentes?

O modelo de saída é o Código atual, de Deontologia e de Diceologia, ou seja, um código que trata de deveres e também de direitos. Pode parecer até um pouco esquisito ter num código de ética, que é um código comportamental, preocupação com direitos de médico. Mas isso não é de todo despropositado na medida em que o direito do médico, na realidade, se trata de um direito do paciente. Um médico com direito, com garantia de qualidade de trabalho, bem remunerado, que tenha capacidade de dispor dos avanços científicos é um médico que melhor atende seu paciente. Imagina um médico que é obrigado a trabalhar em situação extremamente complicada e sem condições. Ele é um prejudicado, mas, no fundo, quem é prejudicado é o seu paciente. Esse nosso código é de 1988. Já se vão 20 anos e pode parecer pouco tempo. Mas, se você olhar esses 20 anos sob a perspectiva da evolução do conhecimento humano, das transformações por que o mundo passou, principalmente na nossa área profissional, é fácil compreender a necessidade de fazer algumas revisões. Em 1988, não existia o SUS (Sistema Único de Saúde). Junto com isso, nós tivemos avanços científicos brutais. Diversas situações nos obrigam a fazer uma revisão.

Quais são as discussões mais difíceis para se chegar a um termo?

Eu penso que um código de ética médica não é decidido no voto. É um grande pacto dos médicos com a sociedade, um discurso, uma palavra da Medicina que diz: “nós médicos nos comprometemos a agir de tal maneira, a defender seus interesses, a defender nossos pacientes”. É um discurso de compromisso, ético, a ser construído no consenso, não na disputa de quem tem mais votos. É claro que numa plenária, há muita contribuição.

Falando de SUS, não apenas do ponto de vista da remuneração, mas das condições de trabalho, o que o senhor tem a dizer sobre a situação do médico no serviço público brasileiro?

O SUS é algo que, como idéia, é extremamente bonito. É democrático, é acolhedor, é abrangente. Na prática, as coisas não são assim. O médico continua sendo mal remunerado, não tendo um plano de carreiras no SUS e isso é em todos os Estados. São raríssimos os que conseguiram evoluir nesse sentido e esse Estado aqui não tem. São cinco Estados, incluindo o Distrito Federal, que atendem à obrigação Constitucional do repasse. O Ceará, que eu saiba, não atende. É um sistema subfinanciado, que não respeita seus profissionais. Não respeita mesmo. E não é só médico. Não tem uma estrutura que dê valor adequadamente aos profissionais que fazem ele acontecer. É um sistema que se diz universal, mas não é universal e os números mostram. Estão fora do Sistema Único de Saúde 40 milhões de brasileiros, que são os que estão na saúde suplementar. Nesta sala aqui 100% não estão no SUS. Porque não há confiança. Então o SUS, que se diz universal, não atende 40 milhões dos 200 milhões de brasileiros, o que corresponde a 1/5 da população brasileira, que não se considera amparada pelo SUS e procura outra fonte de apoio, que é caro. O SUS tem que encarar isso de frente. Não consegue colocar todo mundo. Mas não deixa de ser um avanço. Eu não estou falando de uma coisa ruim, mas de uma coisa que não atingiu, ainda, aquilo que disse que ia ser quando saiu. Mas é importante dizer o seguinte: o SUS pode ser melhor, mas como está agora, está muito aquém daquilo que ele prometeu e disse que ia ser. Não é, também, um belo discurso de cidadania. É um avanço em relação à situação anterior. Mas já temos aí 20 anos e não é uma coisa tão iniciante. Poderia ter melhorado.

Na sua opinião, qual é hoje o maior problema de saúde pública no Brasil?

Os grandes problemas não têm uma causa e nem uma solução única. Talvez a situação mais premente que exista hoje no Brasil seja primeiro um financiamento insuficiente; segundo uma gestão incompetente; terceiro a ausência de uma proposta de relacionamento do trabalho com os seus operadores. São três coisas que, se resolvidas, trariam um salto de qualidade na atenção às pessoas. Ou seja, não tem dinheiro, gerenciamento é capenga e não há respeito aos trabalhadores do SUS, sem exceção.

Como o senhor avalia a apuração dos casos de erro médico no Brasil? São mais causados por problemas estruturais ou humanos?

Nós somos 330 mil médicos. Se você deixar 2/3 em casa, sem trabalhar, e ficar com 100 mil médicos fazendo uma média de 15 procedimentos por dia daria uma média de 1.500.000 procedimentos médicos diários. Isso é a magnitude de tudo isso. Se você trabalhar com o dobro, ainda será pouco. Então nós fazemos muito. Eu costumo dizer, em relação ao erro médico, que nós erramos muito, muito menos do que o entendimento médio da população supõe que ocorra. Nós acertamos muito mais. Por outro lado, nós erramos muito mais do que nós médicos gostaríamos que acontecesse. Mas é realmente isso porque está dentro da natureza humana. Em algumas situações, os médicos erram mesmo, como erram todos os outros profissionais, por erro inerentes deles. E em situações muito freqüentes, aquilo que é imputado como erro médico é, na realidade, decorrente de uma falta de estrutura.

Pode explicar?

Vejamos: uma paciente gestante, que precisa de atendimento, vai ao primeiro hospital, não tem leito, vai ao segundo, não tem; vai ao terceiro, não tem; no quarto, quando chega e tem, a paciente está numa situação complicada. De quem é a culpa? Dos três médicos que não atenderam porque o sistema não pode atender? Ou do sistema que fez com que não tivesse assistência adequada? Infelizmente a imprensa vai dizer: morreu por erro médico. O profissional de imprensa, que tem o dever de informar e deve informar com ampla liberdade, também tem o dever da verdade e de apurar para que não jogue o prestígio, a honra das pessoas na lama. Muitas vezes aquilo que se chama de erro médico é um erro da estrutura. Num número pequeno também às vezes é erro do próprio paciente, quando o médico prescreve o remédio e ele não usa da forma adequada.

Mudando um pouquinho o foco. Como também está se discutindo formação, o Curso de Medicina sempre foi muito procurado. O que se busca tanto, segurança financeira? Encantamento pela profissão? Status?

Eu penso que hoje, mais do que nunca, é o encanto. Porque a Medicina é ex-tre-ma-men-te sedutora. Ela é inebriante, ela é encantadora, ela proporciona algo que nenhuma outra profissão tem. O nosso contato com o ser humano se dá numa dimensão totalmente diferente do que qualquer outra profissão. Nós lidamos com o ser humano sem máscara, em estado puro. Todo mundo se expõe ao médico, seu corpo, sua alma, seu sofrimento, seus medos. E isso aí impõe ao médico uma imensa responsabilidade. Por isso nós estamos discutindo nosso código de ética. Mas isso proporciona a quem exerce a Medicina uma possibilidade de crescimento, de compreender a alma humana, de ser partícipe dessa alma humana no seu estado mais cristalino. A Medicina sempre irá atrair as pessoas.

E quais são as principais discussões em termos do ensino da Medicina?

A discussão se centraliza basicamente numa coisa chamada qualidade do ensino. Nos preocupa a quantidade exacerbada e irresponsável de novas escolas médicas abertas no Brasil, pouquíssimas com projetos pedagógicos. Muitas foram abertas como um grande balcão de negócios. Eu tenho uma juventude seduzida, encantada, motivada, querendo ser bom médico e vai para uma escola que não é boa. A médio prazo, você vai condenar um monte de gente a ter uma assistência deficitária. Eu não tenho nenhuma preocupação em relação a ter muito médico. Particularmente, eu tenho zero de preocupação. Se todos os médicos estiverem bem formados, se todos os médicos tiverem um nível legal, ótimo.

FIQUE POR DENTRO
Edson Andrade é presidente do CFM

Edson de Oliveira Andrade é graduado em Medicina e Direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), concluiu mestrado em Medicina (Pneumologia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) em 1990, doutorado em Medicina (Pneumologia) pela UFGRS em 2007. É ainda doutorando em Bioética pela Faculdade de Medicina do Porto (Portugal). Atualmente é médico especialista (Clínica Médica e Pneumologia) da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas e professor Adjunto da Ufam. Este é seu quarto mandato no CFM.

MARISTELA CRISPIM
Repórter


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