Escolas Médicas do Brasil

Ensino Médico - Reflexões sobre o Ensino Médico - por Renato Delascio Lopes

 27/06/2011

Ensino Médico Reflexões sobre o Ensino Médico

A critical analysis about Medicine Teaching


Renato Delascio Lopes Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro.
Unitermos: ensino médico, residência médica e pós-graduação. Unterms: medicine teaching, medical residency and post-graduation.


Ao analisarmos o produto final das Escolas Médicas do país, mesmo daquelas ditas tradicionais, verificamos que, com raras exceções, o recém-egresso não possui condições para o exercício da Medicina - ciência e arte.

Voltando um pouco ao passado, verificamos que esta não era a realidade, pois o aprendizado por meio da vivência ao lado de profissionais competentes garantia uma razoável formação profissional. Embora não fosse a forma ideal de ensino-aprendizado, correspondia, em parte, ao que hoje chamamos de ensino baseado na comunidade e o resultado era satisfatório e, no mínimo, melhor que o fornecido pela maioria dos atuais cursos de graduação. A deficiência do ensino na graduação tornou obrigatória a realização da residência médica, de modo que sua falta, nos dias atuais, é praticamente inadmissível. Deste modo, o curso médico "adquiriu", atualmente, a duração mínima de oito anos. Podemos dizer que é a residência que sana as deficiências da graduação, permitindo, assim, que o médico recém-formado adquira os conhecimentos necessários para uma boa e consciente prática médica.

Deve-se salientar que o ensino nas boas residências confirma a assertiva de que a Medicina é a profissão do fazer e, portanto, ensiná-la não é difícil - basta o aluno olhar quem sabe fazer e depois fazer sob a observação de quem sabe. Apregoa-se, então, o ensino com responsabilidade, sem o qual haverá deformações na educação médica. Gostaríamos de vivenciar isso na graduação!

Quais seriam, então, os fatores determinantes dessa progressiva decadência a que temos assistido no ensino na graduação? Algumas reflexões se fazem necessárias. Primeiramente, encontramos um grande número de Escolas Médicas, que não atendem às exigências regionais, fazendo, assim, com que ao terminar o curso médico, o jovem procure um grande centro, e lá fique, não mais voltando para sua região, onde poderia estar contribuindo para o ensino daquele local. A par disso, os recursos humanos, incluindo o corpo docente, e os materiais deixam a desejar.

Grande parte dos professores, embora possam ser bons profissionais, não possuem formação universitária - nem sempre um bom médico é um bom professor. O magistério superior é uma carreira com vários degraus, que precisam ser conquistados para que, desta maneira, o docente adquira maturidade e mentalidade universitária e seja capaz de passá-la a seus alunos, educando-os e não apenas transmitindo parcos conhecimentos técnicos. Além disso, o aluno, motivo pelo qual a Escola Médica existe, parece atrapalhar, por vezes, a própria escola, isto é, as atividades dos docentes. Desta forma, temos uma inversão de valores - valoriza-se demais a pós-graduação, deixando, assim, a graduação em segundo plano.

É importante não esquecermos que o aluno precisa aprender a aprender - saber gerar seu próprio conhecimento através de iniciações científicas e seguindo exemplos de verdadeiros professores, desenvolver as habilidades técnicas e vivenciar as atitudes de seus mestres para que possam, assim, aprender ética profissional, bioética e entender o compromisso social da escola médica desde o primeiro ano do curso médico. Deve-se conscientizar de que o importante é tratar o homem que possui a doença e não a doença que o homem possui. Isso, em geral e infelizmente, não ocorre.

Por outro lado, a pós-graduação strictu sensu, além de supervalorizada, forma pesquisadores e docentes que poderiam contribuir para o ensino médico, mas, no entanto, dele se distanciam, ficando, assim, os docentes cada vez mais afastados dos alunos, contribuindo, dessa forma, com o sucateamento da graduação.

Como pudemos perceber o ensino médico vem deteriorando-se ao longo dos tempos, atingindo, nos dias de hoje, uma situação caótica. Cabe-nos, então, lutar por uma reforma curricular e não admitirmos uma simples mudança de grade horária, para termos um ensino médico na graduação mais eficiente, que contemple o saber emergente, valorize a relação médico-paciente e o caráter humanístico da Medicina, fornecendo ao aluno uma formação holística e, garantindo, assim, o compromisso ético e social da escola médica com os alunos, docentes e comunidade.


 


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