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Nova epidemia "obriga" faculdades de medicina a repensar currículo

 09/04/2008

Nova epidemia 'obriga' faculdades de medicina a repensar currículo

Neste ano, dengue fez muitas vítimas entre as crianças e foi mais agressiva.
Estudantes afirmam que ensino nas salas de aula é insuficiente.
Daniella Clark Do G1, no Rio 

 
Nos primeiros cem dias de 2008, 68 foi o número de mortos por dengue só no estado do Rio. Os casos passaram de 57 mil. Oitenta foi o número de dias que o governo levou para reconhecer que a população enfrentava uma epidemia (a Prefeitura ainda trata a doença como um surto localizado). E 13 foram os fins de semana que se passaram até que a Prefeitura do Rio aumentasse a lista de postos abertos aos sábados e domingos, após determinação da Justiça.

Veja a cobertura sobre a doença

O alcance da doença agora atingiu as faculdades de medicina, que pretendem repensar a maneira como seus alunos podem enfrentar essa nova geração de mosquitos e as que estão por vir.

“A epidemia de 1986 despertou a inclusão da dengue no currículo médico. Isso antes não era dado, era uma doença considerada exótica. Agora, com essa nova realidade em que as crianças são as principais vítimas, há de se aperfeiçoar a formação de futuros pediatras”, afirma Roberto Medronho, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estuda ceder 60 alunos do último ano de medicina para atuar no combate à dengue no estado.

 Desafio também para professores

Para o professor Marcos Olivier Dalston, do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias da Universidade Federal Fluminense (UFF), a doença vem se tornando um desafio não só para alunos, mas também aos professores.

“Desde 1995, a doença vem mudando o perfil de apresentação. É coisa nova para os médicos de um modo geral. Essa epidemia está ocorrendo muito em crianças, coisa que não se via antes, assim como hepatite causada pelo vírus da dengue e infecções por sorotipos diferentes”, explica Dalston.

Em um caso no Hospital da Posse, na Baixada Fluminense, por exemplo, o vírus foi tão agressivo que provocou uma ruptura no baço do pedreiro Joselino Gonçalves, de 31 anos. Outro efeito antes desconhecido é a contaminação de bebês ainda na barriga da mãe. Nesta semana, a Secretaria estadual de Saúde confirmou o primeiro caso de morte de uma grávida e de seu feto por dengue. Outro bebê, também infectado durante a gestação, sobreviveu.

 Despreparo para cuidar de crianças

Para a estudante Flavia Rosa da Silva, de 26 anos, que está no segundo ano de residência pediátrica na Universidade Estadual do Rio (Uerj), muitos alunos não saem em condições de lidar com a principal vítima desta epidemia: as crianças.

“A gente tem uma formação voltada para clínica geral. Os alunos não fazem acompanhamento das crianças com dengue, não saem preparados para lidar com o problema em crianças, em que os casos são mais graves e requerem acompanhamento constante”, explica.

Ela estava no comitê que, junto à direção do Hospital Universitário Pedro Ernesto, na Tijuca, Zona Norte do Rio, sugeriu um reforço de alunos voluntários no atendimento a crianças vítimas da doença. Os internos passariam por uma espécie de estágio na área de pediatria do hospital da universidade. Marcos Junqueira do Lago, chefe do departamento de pediatria da Uerj, ressalta que, durante o internato, os alunos aprendem a parte clínica, de como a doença se comporta.

 Dia-a-dia dos postos serve como aula

Na Universidade Gama Filho, a crise nos postos de saúde do Rio se transformou numa aula sobre a doença. Segundo o coordenador de medicina Dirceu Bellizzi, uma das eletivas oferecidas aos alunos do primeiro período inclui o acompanhamento do dia-a-dia de uma unidade do município, onde os estudantes passam quatro horas por dia durante quatro semanas. Segundo Bellizi, com a epidemia, a procura por essa disciplina cresceu 40%:

“Temos uma inserção precoce do aluno na rede do SUS (Sistema Único de Saúde). O objetivo do aluno no posto não é tratar, é ver o que está acontecendo e voltar para aprender”. 

Prática reforçada

O infectologista Edimilson Migowski, do Departamento de Pediatria da UFRJ, diz não ver falhas na formação dos futuros médicos, que para ele pode ser reforçada pela prática nesses tempos de surtos da doença. A universidade organizou eventos para orientar a comunidade acadêmica no combate à dengue, com a realização de palestras de professores.

“A gente tem tratado isso há muito tempo. Os estudantes atendem pacientes com dengue e, quando há uma epidemia, têm formação prática e teórica”.

Letícia Hastenreiter, de 24 anos, aluna do 11° período de medicina da UFRJ, conta que sente falta de um aprendizado mais direcionado para a doença na parte teórica.

“A gente aprende sobre a dengue, mas como a gente aprende sobre outras doenças infecciosas. Não há um aprendizado direcionado”, diz Letícia, que vai escolher pediatria, especialidade que vem perdendo adeptos entre os estudantes de medicina

Médicos passam por treinamento

Os males causados pelo mosquito Aedes aegypti, no entanto, são um desafio também fora das salas de aula. Os médicos importados de outros estados para reforçar o socorro à população – até terça-feira(8), 95 já embarcaram em terras cariocas – tiveram que passar por um curso em que aprenderam o protocolo de atendimento. Eles foram orientados, por exemplo, a oferecer soro e fazer exame de sangue em todos os pacientes que apresentam os sintomas da dengue. Os pacientes que estiverem com baixo número de plaquetas devem ser encaminhados para internação. Os demais são orientados a retornar em 24 horas para novo exame.

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