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Lá vem bomba em 2012 - Editorial da Gazeta do Povo -Curitiba/PR

 12/12/2011

EDITORIAL

Lá vem bomba em 2012 

Publicado em 12/12/2011

 

A primeira impressão deixada pelo Censo de Educação Superior 2010 é a de que o governo está botando os pés pelas mãos. E, nesse caso, a primeira impressão é a que fica. Há o que festejar, reconheça-se. Em uma década, o crescimento do setor mais do que duplicou, chegando a 6,4 milhões de estudantes, sepultando os vexatórios índices de outrora, petrificados em 4% da população com terceiro grau. Basta dizer que de 2009 para o ano seguinte o avanço foi de 7%, índice a ser festejado na Sapucaí.

Mas é preciso passar o rodo na tabela de números. A taxa de educação bruta – aquela que mede a população em idade escolar e sua permanência no sistema de ensino – é de 36%, deixando-nos atrás do Chile e da Argentina, cujos porcentuais são bem mais confortáveis. Se a comparação for com os países da Europa, cujos jovens, em números bem mais expressivos, frequentam cursos superiores, a medição é a anos-luz.

Querer se parecer aos outros não se trata de um mimo. O desenvolvimento tecnológico e humano do país depende desse índice, como se sabe desde os tempos de Cabral e sua esquadra. E o governo de fato cometeu erros crassos ao tentar aumentá-los com passos de papa-léguas, perseguindo mais um efeito político do que uma revolução educacional. Ao favorecer de forma hiperativa o aumento de cursos e de vagas incorreu num engano que qualquer acadêmico do primeiro semestre de Pedagogia poderia intuir: a qualidade baixa.

Hoje, 73% dos alunos do ensino superior são da rede privada – rede que, em boa parte, não fez jus ao “espetáculo de crescimento”, lambuzando-se com as facilidades da era Lula. Salas mais cheias do que as do ensino médio, professores acumulando cadeiras para as quais não têm gabarito, laboratórios aos pandarecos estão aí para comprovar a lambança. Podem ser vistos a olho nu, pelas escotilhas, mesmo com o Ministério de Educação se apressando em arrumar a casa, como uma diarista imprudente.

Nesse último mês foi feito o anúncio de corte de 50 mil vagas ociosas. Na área da saúde, 148 cursos passaram pelo pente-fino, levando só na área de Odontologia 3.986 vagas, número capaz de atiçar a imaginação dos bocas abertas. Quem haverá de colocar a broca em nossos dentes? A punição seria o baixo desempenho no Enade, entre outros problemas que podem transformar faculdades em verdadeiros sacolões.

Esse tipo de observação soa antipática. Formou-se um consenso de que era urgente aumentar a carga de gente no topo do ensino, turbinando a qualidade depois que a lona estivesse armada, sob o impulso da concorrência. É uma meia-verdade. O boom educacional brasileiro trouxe um efeito perverso – a mercantilização do ensino superior. Não passa mês sem evidência de que tem propaganda demais para excelência de menos.

Para citar dois escorregões recentes, veio à tona que faculdades particulares de pouca tradição chegam a contratar “cabos eleitorais” para angariar alunos para suas fileiras, pagando cachê pelo serviço, uma verdadeira festa do coco. Outro escândalo é a segregação de alunos do ProUni, impedidos de mudar de turno, de concorrer a bolsas de iniciação científica e a estágios. Não ficou nada bonito. Mesmo o pior curso superior é um avanço na vida de um aluno, mas nada que justifique trabalhar em regime de queima de estoque. A estratégia de barateamento é inimiga de resultados. Basta conferir os índices de evasão.

Em todas as esferas caiu o número de formandos, fazendo soar os alarmes. Nem as federais escaparam: a diminuição foi de 62% para 52%. O setor reage à crítica de que “não consegue segurar aluno” afirmando que os acadêmicos mudam muito de curso, coisa própria da idade. Mas mal não faria se perguntar se os cursos superiores estão minimamente interessantes e se atendem à realidade do país.

Deseja-se, obviamente, o aluno que frequente o matutino e que tenha tempo para estudar. Mas eles não são à imagem e semelhança dos professores. Vêm de um ensino médio capenga que é o calo da educação brasileira. Mesmo entre os oriundos da classe A e B, muitos trabalham ou se engalfinham por estágios para dar conta de uma sociedade sem emprego fácil para quem estudou – nossa trágica ironia.

Em miúdos, faculdades e universidades privadas precisam cumprir uma lição básica: a de arcar com parte que lhe cabe, mudando seus métodos para atender o novo alunato, evitando a hipocrisia de que os bons se estabelecem, como gostam de arrotar. O mesmo vale para as federais. O Reuni – programa de incremento de vagas – virou uma piada de mau gosto. Cursos noturnos, abrindo esses centros de excelência de saber para camadas menos privilegiadas, idem. A turma da educação superior entra em 2012 cheia de DPs. Lá vem bomba.


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