Escolas Médicas do Brasil

O Ensino Médico

 20/02/2003

"Pesquisando o ensino médico em outros países, encontramos surpreendentes similaridades entre a inquietante situação do ensino médico no período 1965 a 1991 no Brasil com a não menos desconcertante situação do ensino médico no período 1906 a 1933 nos Estados Unidos e no Canadá ( na época, um domínio britânico, sem a extensão territorial atual, e pouco habitado).

Em 1906, os Estados Unidos, então com 87 milhões de habitantes, e o Canadá, com população de 6 milhões, tinham 160 faculdades de medicina sem currículo regulamentado, mal equipadas e com carências qualitativas e quantitativas no corpo docente. Grande parte delas encarava o ensino médico como atividade meramente lucrativa. Estas escolas diplomavam anualmente dezenas de milhares de médicos, acima das necessidades da América do Norte, e que prestavam uma assistência médica que deixava muito a desejar ( notem a similaridade com a situação atual em nosso País).

Houve então uma tomada de posição para mudar radicalmente aquela situação insustentável e sem lógica. A Fundação Carnegie para o Avanço do Ensino, presidida pelo educador e professor de Astronomia, Henry S. Pritchet contratou o professor Abraham Flexner, um educador e professor de Grego, com a incumbência de fazer um estudo sobre as escolas médicas da América do Norte.

Flexner pensou que Pritchet estivesse confundindo-o com o seu irmão, o Doutor Simon Flexner, médico e ilustre professor de Anatomia Patológica, que trabalhava no Instituto Rockfeller, e chamou sua atenção para o fato de que ele não era médico e nunca tinha colocado os pés numa escola médica.

Henry Pritchet, que presidiu a Fundação Carnegie de 1906 até 1930 e presidiu também o Massachussets Institute of Technology" (MIT), retrucou: " É exatamente o que eu preciso. Eu penso que estas escolas profissionais devam ser estudadas não sob o ponto de vista do praticante da profissão, mas do ponto de vista do educador."

Durante quatro anos, de 1906 a 1910, Flexner visitou cada uma das 160 escolas ( todas, sem exceção) e elaborou um extenso e minucioso relatório, publicado como Boletim n.º 4 da Fundação Carnegie em 1910. Este documento, hoje considerado um clássico em pesquisa de ensino, é leitura obrigatória para quem se interesse pelo aperfeiçoamento do ensino médico, sobretudo em países em desenvolvimento que têm sérias dificuldades nessa área. Suas proposições foram seguidas à risca e quase uma centena de escolas médicas - precisamente 94 - foram fechadas no período de 1910 a 1933.

Para as remanescentes foram estipuladas normas de funcionamento, com obrigatoriedade de serem vinculadas a uma universidade ou a hospitais de ensino previamente qualificados. Foi também estabelecido um processo de aferição da capacitação "State Board". A licença para a prática médica na América do Norte passou a ser concedida somente após a aprovação do médico no State Board.

O professor Abraham Flexner, falecido em 1959, em um de seus livros, sua autobiografia intitulado Iremember: Na Autobiography ( New York, 1940; Simon and Schuster Edit.), conta que foi até ameaçado de morte quando dava prosseguimento à liquidação de uma faculdade de medicina. Ele trabalhou nesse mister até 1933, quando a última escola proscrita encerrou suas atividades.

As raízes da moderna medicina científica norte-americana residem nesta reorganização educacional. O ano de 1933 tornou-se uma marco: a partir daquele ano, os Estados Unidos ( então com 125 milhões de habitantes e o Canadá ( com uma população de 10,5 milhões ) passaram a ter apenas 66 faculdades de medicina, todas confiáveis e que produziam profissionais habilitados, em quantidade suficiente para as necessidades de saúde da população".


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