Escolas Médicas do Brasil

Médicos demais

 20/02/2003

Estudo realizado pelo ex-presidente da Associação Médica Brasileira Antônio Celso Nunes Nassif mostrou que o Brasil já possui mais de cem escolas de Medicina. Essas escolas formam quase 9.300 novos médicos todos os anos. No ano passado, pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) concluiu que o número de médicos crescia em proporção duas vezes maior que a população, com os profissionais excessivamente concentrados nos grandes centros.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que haja um médico para cada mil habitantes. Em 1999, o Estado de São Paulo já contava 1 médico para cada 479 habitantes, enquanto a média do País era de 1 para 673. Naquele ano, segundo os dados de estudo do CFM, o Brasil formava pouco mais de 8 mil médicos por ano. Com a criação, neste ano, dos dois mais novos cursos de Medicina, em Sobral e em Barbalha, no Estado do Ceará, rompemos a barreira de 100 escolas médicas, oferecendo 9.278 vagas todos os anos.

Vários associações médicas têm alertado para os riscos da "proliferação desordenada" de escolas médicas no País, preocupando-se primeiro, com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), com o fato de que mais de 30% dos médicos formados não conseguem fazer residência médica. Em outubro de 1999, o Cremesp organizou uma campanha sob o lema "Novos cursos de Medicina fazem mal à saúde", dizendo que médicos despreparados aceitam trabalhar em qualquer condição. A campanha insistia em mostrar que o erro médico é resultado de vários fatores, entre os quais a falta de estruturas para atendimento, baixos salários, múltiplos empregos e, principalmente, "falta de qualificação e de educação continuada".

A expansão da oferta de vagas nas escolas aumenta a dificuldade de se controlar a qualidade do ensino médico no País. Em agosto do ano passado, o MEC avaliou 79 cursos médicos e 20 deles receberam o conceito de "insuficiente" em um ou mais itens relativos à qualificação dos professores, currículos ministrados e instalações físicas. Ainda mais preocupante é o fato de que foi de 4,9 a média dos formandos de Medicina no Provão. Considerando que um quarto dos cursos médicos avaliados receberam a qualificação de "insuficiente" e que os médicos formados sabem menos da metade do que deveriam ter aprendido, obviamente não parece sensato aumentar o número de escolas médicas. A maior pressão pela abertura de novos cursos de Medicina é política. Os prefeitos consideram que esse tipo de cursos, têm sido suscetíveis às pressões dos governadores, que precisam atender compromissos eleitorais com os prefeitos. A pressão no âmbito estadual não é única: apesar da expansão já ocorrida, o Conselho Nacional de Saúde enfrenta, neste mês, pedidos de 21 instituições de ensino isoladas (com suficiente poder de pressão inclusive no Congresso Nacional) para instalar novos cursos de Medicina.

O espírito corporativo dos médicos e uma disputa de poder entre o MEC e o Conselho Nacional de Educação não só têm impedido o fechamento das más escolas de Medicina, como têm permitido a expansão desordenada das escolas médicas.


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