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Mais bons médicos - Editorial da Folha de São Paulo

 02/02/2015

 Mais bons médicos

02/02/2015  02h00

 

Em sua terceira edição desde que se tornou obrigatório, o exame de proficiência aplicado aos concluintes das faculdades paulistas de medicina traz mais uma vez resultados desalentadores.

A prova ministrada pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) no ano passado reprovou 55% dos 2.891 futuros profissionais. Nenhuma novidade, infelizmente; nas edições de 2012 e 2013, o índice foi de 54,5% e 59,2%, respectivamente, confirmando a persistência da baixa qualidade do ensino médico no Estado.

Também persiste a diferença de desempenho entre instituições públicas e privadas. Enquanto nas primeiras 33% dos egressos não conseguiram atingir a quantidade mínima de acertos (60%), nas escolas particulares, que concentram a maioria dos alunos, 65,1% não obtiveram desempenho satisfatório. Nada de novo nesse front.

É especialmente preocupante a constatação de que parte considerável dos participantes do exame revelou desconhecimento sobre questões básicas da prática médica. Por exemplo, 67% não souberam diagnosticar pneumonia num bebê de seis semanas; 47% erraram a sequência de conduta diante de um jovem ferido por arma branca.

Mais grave, porém, é o fato de que a reprovação no exame não impede o formado de exercer a medicina. No teste paulista ninguém precisa provar nada, pois não passa de etapa burocrática para a obtenção do registro profissional.

O próprio Cremesp acusa o despropósito da situação, pela qual não tem culpa. Cabe ao Congresso aprovar lei que torne a aprovação no exame precondição para o exercício da medicina –um verdadeiro teste de habilitação, como já existe para os bacharéis em direito.

Quanto a isso, bem que o Conselho Federal de Medicina poderia pressionar os legisladores. A entidade, contudo, que no início do programa Mais Médicos manifestou saudável preocupação a respeito da formação dos profissionais estrangeiros que chegavam ao país, mostra pouca disposição na defesa da qualidade dos formados em terras brasileiras.

Diante da abulia do CFM, é bem-vinda a iniciativa do Cremesp de, a partir de 2016, fiscalizar os novos médicos que forem reprovados no exame de proficiência. Esses profissionais terão de apresentar relatórios e realizar cursos de capacitação, entre outras atividades.

Apesar de representar um avanço, tal medida deveria servir apenas como um paliativo enquanto o principal remédio para combater os problemas da formação médica não é administrado.


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