Escolas Médicas do Brasil

Projeto Flexner brasileiro - por A.C.N.Nassif

 25/08/2006

“Ser médico: uma extraordinária vocação concedida a poucas pessoas para o divino exercício de desvendar os males e curar o homem.”

“No início do século passado, mais precisamente em 1906 os Estados Unidos e o Canadá passavam por uma situação constrangedora no ensino médico. Tinham 160 faculdades de medicina quase todas mal equipadas, sem currículo regulamentado, corpo docente fraco e carente. A maioria comercializava o ensino médico, preocupada apenas com o lucro. Dezenas de milhares de médicos eram por elas diplomados anualmente, número bem acima do necessário, aliado a um impressionante porcentual de profissionais despreparados.

Necessário se fazia tomar uma atitude política importante e decisiva para mudar radicalmente aquela situação insustentável e ilógica. O educador e professor de grego, chamado Abraham Flexner foi contratado pela Fundação Carnegie, com a incumbência de efetuar um estudo sobre as escolas médicas da América do Norte. Um fato interessante ocorreu nessa contratação: Flexner pensou que havia sido confundido com seu irmão Simon, médico e ilustre professor de Anatomia Patológica, e disse ao presidente da Fundação que ele não era médico e nunca tinha colocado os pés numa escola médica. Henry Pritchet, presidente da Fundação retrucou: “É exatamente o que eu preciso. Eu penso que estas escolas profissionais devam ser estudadas não sob o ponto de vista do praticante da profissão, mas do ponto de vista do educador.”

Durante quatro anos, de 1906 a 1910, Flexner visitou cada uma das 160 escolas, -todas sem exceção- e elaborou um extenso e minucioso relatório, publicado no Boletim n.4 da Fundação Carnegie em 1910. Suas posições e propostas foram seguidas à risca consumindo 23 anos para serem implementadas. Nesse período que se estendeu até 1933 foram fechadas 94 escolas médicas. Para as remanescentes estipularam-se normas de funcionamento, como a obrigatoriedade de serem vinculadas a uma universidade ou a hospitais de ensino previamente qualificados. Estabeleceu-se também o “State Board” até hoje existente, destinado a aferir a capacitação técnica do aluno após a graduação. A licença para a prática médica na América do Norte passou a ser concedida somente após a aprovação do médico no “State Board”.

O ano de 1933 tornou-se um marco na reorganização do ensino médico na América do Norte. Os Estados Unidos e o Canadá passaram a ter em funcionamento 66 faculdades de medicina, todas confiáveis e que formavam profissionais habilitados, em quantidade suficiente para as necessidades de saúde da população”(JHRo).

No Brasil aconteceu exatamente o contrário. Em 1960 eram 29 escolas médicas, havendo passado a 73 em 1971. O ritmo de expansão foi particularmente acelerado a partir de 1965, tendo-se criado, desde então, 37 faculdades. Em 1992 chegávamos a 80 em todo o país, terminando o século com 99 cursos de medicina. Neste início de novo século, lastreado por uma política inconseqüente do MEC esse número alcançou o topo do ranking mundial. Ao totalizar 159 escolas médicas, o Brasil deixou para traz a China com 150, a Índia 140 e os EUA 125. Enquanto o verdadeiro “festival de escolas médicas” acontecia, muitas das já existentes aproveitaram para duplicar ou mesmo triplicar o número de vagas usando o artifício da criação de dois turnos semestrais, ou de um novo campus. A oferta de vagas nos vestibulares saltou para 14.398, sendo que para esse total de formandos, as destinadas à Residência Médica, não passa de 40%.

O resultado de tudo isso: faculdades de medicina criadas de afogadilho, sob critérios políticos satisfazendo “status” municipais; professores numericamente insuficientes, muitos deles despreparados didaticamente para atender a essa demanda de ensino, outros, sequer residindo nas cidades onde se localizam as escolas, criando assim a figura do professor itinerante e faculdades de fim de semana. A qualidade do ensino caiu vertiginosamente. As conseqüências foram trágicas e os reflexos todos nós assistimos nos dias de hoje.

A única saída no momento é, suspender por, no mínimo 4 anos a criação de novos cursos e aplicar com rigor a exigência de requisitos mínimos para a abertura de novas escolas, como os que foram propostos em 1999 pela Associação Médica Brasileira, e usá-los também, para avaliar as já existentes. Na verdade, o ensino médico em nosso país precisa viabilizar um “projeto Flexner brasileiro” com o propósito de recuperar as escolas deficientes e suspender os vestibulares e matriculas novas nas comprovadamente irrecuperáveis.

ANTONIO CELSO NUNES NASSIF, 71, médico e professor da UFPR, foi presidente da Associação Médica Brasileira e Membro do Conselho Nacional de Saúde.


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