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Reitores e estudantes questionam o Enade

 19/08/2008

19/08/2008 (09:45) | COMENTÁRIOS (0)

Reitores e estudantes questionam o Enade

Ronney Argolo

O curso de fonoaudiologia da Universidade do Estado da Bahia [Uneb] teve a pior nota entre as universidades estaduais no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes [Enade] este ano: ficou com conceito 1. O resultado é totalmente oposto ao de 2004, quando tirou 4 e foi considerado um dos melhores do Nordeste. “Está entre as graduações com mais investimento da instituição, temos uma clínica-escola, professores bem qualificados. Foi um impacto para a gente esse resultado“, disse o reitor Lourisvaldo Valentim.

Para outros, já era uma média esperada. Detian Almeida, 22, presidente do Diretório Acadêmico [DA] do curso, participou do comitê que promoveu o boicote ao Enade, uma iniciativa nacional de todos os cursos de saúde.

A orientação de boicote parte da União Nacional dos Estudantes [UNE], Lúcia Stumpf, presidente da UNE, considera a avaliação falha  por dar mais peso ao resultado dos estudantes, não ter função corretiva e ranquear as instituições, o que não identifica problemas das universidades. “O Enade, sozinho, é só propaganda para faculdade particular bem colocada e mais uma cara do Provão“.

Inspeção – A prova do Enade é composta por questões de conhecimentos gerais e específicos dos cursos. Graduações com desempenho abaixo de 3 recebem visita do Ministério da Educação [MEC], para avaliação da estrutura, corpo docente e metodologia. Cada visita dura três dias e, ao fim delas, é feito um relatório.

uando a nota do curso é 3 ou mais, não há inspeção obrigatória, só se a universidade pedir. A prova teórica fica valendo como comprovante de qualidade. Um erro, para a presidente do DA de fonoaudiologia da Uneb, pois nos cursos de saúde a parte prática tem muita importância.

Com a nota baixa, os alunos de fono esperam uma avaliação mais completa. ”Queremos que o MEC venha aqui e diga onde estamos acertando e onde podemos melhorar“, explica Detian Almeida.

Punição – Augusto Gaffga, 22, integrante do D.A do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia [Ufba], ajudou a promover o boicote à prova no último ano. Segundo o MEC, no total, 25% dos alunos de medicina entregaram a prova em branco, o que provocou os baixos resultados.

Augusto concorda com as opiniões de Detian. Acredita que a prova tem um valor punitivo e segue a lógica do mercado, o que é nocivo, principalmente para as instituições públicas.

”O governo fecha as instituições consideradas ruins e favorece as que têm notas altas, enquanto deveria ajudar as universidades com baixo desempenho a se recuperaram de suas falhas“.

Representante estudantil no conselho de graduação da Ufba e ex-membro do Diretório Central dos Estudantes [DCE], Eduardo Ribeiro, 24, reclama da falta de retorno do MEC para as universidades. Para ele, a avaliação do ensino superior deveria ser mais completa e propor mudanças nos projetos pedagógicos, não apenas publicar os resultados.
Imperfeita – Sérgio Franco, presidente da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior [Conaes], reconhece falhas no sistema. O Conaes é reponsável pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior [Sinaes], do qual faz parte o Enade.

Segundo Franco, a avaliação independe da regulação. ”Se visitamos um curso no interior e chega a conclusão de que é conceito 2, a equipe de regulação pode considerar as fragilidades do lugar e mantê-lo aberto. Da mesma forma, um curso de conceito 3 também pode não ser aceito, a depender do contexto em que está inserido.“ Segundo ele, os cursos em dificuldade recebem apoio e não sanções do MEC.

Ele admite que não há equipe para analisar cada realidade. ”Temos cerca de 26 mil cursos no Brasil. Não dá para visitar todos“. Segundo Lúcia Stumpf, o movimento estudantil não pretende se dobrar. ”Só apoiaremos quando a avaliação buscar a qualificação dos cursos“.

Confira aqui o resultado do Enade|


Conceito Preliminar de Curso gera discussão 

Diferentemente do que acontecia com o Provão, o governo não considera o resultado do Enade como reflexo do ensino brasileiro . O exame é parte integrante do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior [Sinaes], coordenado pelo Codes. Através da prova, o Sinaes avalia o desempenho dos alunos. Cabe ao sistema também verificar a qualificação do corpo docente, a estrutura da instituição e analisar a auto-avaliação das universidades.

Neste ano, O Ministério da Educação [MEC] criou o Conceito Preliminar de Curso [CPC]. Ele é calculado com base no Enade, que tem 40% do peso; na diferença entre as notas dos ingressantes e concluintes [Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado - IDD], que vale 30%; no questionário socioeconômico e no Cadastro de Docentes 2007, que juntos somam os 30% finais.

Com esses novos critérios, alguns cursos cresceram em conceito e outros foram   rebaixados. Medicina, na Ufba, foi um dos favorecidos. Teve nota 2 no Enade, mas considerados os outros critérios, ficou com 3 no Conceito Preliminar de Curso. 

Protesto – O Fórum das Entidades Representativas do Ensino Superior Particular, do qual fazem parte 80% das instituições privadas do País, encaminhou um documento para o MEC se opondo ao CPC.

Segundo o texto, "fica claro que o Ministério da Educação não conseguiu implantar o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior e pretende substitui-lo por um conselho preliminar de curso, improvisado e precário“.

O presidente da Conaes, Sérgio Franco, discorda. Segundo ele, o conceito não substitui o Sinaes e sim mostra o percurso da avaliação. “A lei manda que todo processo seja transparente. Além disso, quando a faculdade sai bem no conceito, publica. Só reclama quando vai mal”.

 
Estaduais querem mudanças na avaliação  

Para as instituições que não são federais, participar ou não do Enade é opcional por Estado, que pode elaborar sua própria forma de avaliação. A escolha é feita pelo Conselho Estadual de Educação.

Na Bahia, o conselho optou por participar do Enade. Norma Vídero, coordenadora interina de desenvolvimento da educação superior [Codes] da Bahia, considera positivo um comparativo nacional, mas acha que apesar da prova ser única, a análise poderia ser diferenciada por região.

Ela também é a favor de repensar a forma de divulgação, que ranqueia as instituições como boas e ruins. “Falta o governo explicar à população o que é o Sinaes e esclarecer que o Enade é parte de uma avaliação maior.”

Reitores – Para Mônica Torres, pró-reitora de graduação da Uneb, o Enade é mais completo que o Provão, mas ainda dá grande peso ao desempenho do estudante e não dá um retorno claro à faculdade, como metas com o que deve ser melhorado, o que acaba tendo mais valor punitivo que corretivo.

Ela também considera problemática a obrigatoriedade da prova, justificada pelo MEC como forma de garantir uma amostra geral de todos os alunos. Para a pró-reitora, isso desistimula e faz com que alunos não comprometidos participem.

Os melhores resultados entre as estaduais ficaram com a Universidade Estadual de Santa Cruz [Uesc], que teve três cursos com conceito 4 e três com 3.

Adélia Pinheiro, reitora da instituição, acredita que os resultados do CPC são importantes por permitirem direcionar e investir na modificação de currículos, mas não devem ser isolados. “Contudo, acessando os relatórios disponíveis no site do Inep, com os percentuais de erros e acertos, provas e gabaritos, permite, sim, a identificação de algumas qualidades e problemas”.

 

Estudantes divergem sobre o boicote 

José Carlos Almeida, reitor da Universidade Católica do Salvador [UCSal], é um dos contrários à divulgação do Conceito Preliminar de Curso e aos critérios da análise.  A Católica teve quatro cursos avaliados –  fisioterapia e serviço social com CPC 3, educação física com 1 e enfermagem com 2.

O reitor reclama do Enade ser uma prova única e não uma avaliação processual. “Não levam em consideração as especificidades de cada local. Querem transformar em homogêneo o que é heterogêneo”, protesta.

Segundo Sérgio Franco, o índice matemático não distingue regiões, já que a qualidade da educação que se quer é universal. As  especificidades só são levadas em consideração na visita do MEC.

Na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública [EBMSP], nenhum curso passará por inspeção do MEC, já que todos foram avaliados com conceito 3. Não obstante, Marta Menezes, coordenadora de medicina, não acha o exame ideal. Para ela, o Sinaes, que considera um sistema bem elaborado, deveria ser implementado na íntegra e não utilizar apenas o Enade como instrumento.

Estudantes – Laura Guedes, 21, estudante de medicina da Ufba, achou as questões gerais do Enade parecidas com o modelo do Exame Nacional do Ensino Médio [Enem], que já tinha feito. Só ficou um pouco assustada na parte específica, já que é cobrado o conteúdo de todo o curso e ela ainda está no 5º semestre.

Laura decidiu não boicotar o exame. “Não acho a prova  ideal, mas é preciso algum tipo de avaliação para o ensino superior”.

Larissa Motta, 20, estudante de nutrição da Uneb e integrante do D.A. apoiou o boicote e entregou sua prova em branco. Ela considera a avaliação importante, mas não concorda com o que é feito dos dados obtidos. Sente falta de retorno do MEC para as instituições. Sua colega de universidade, Camila Ferreira, 21, acredita que o Enade está sendo utilizado como slogan. “Não vemos metas ou análises mais específicas, só propagandas positivas ou negativas, a depender do desempenho dos cursos”

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