Escolas Médicas do Brasil

O custo da má qualidade

 11/03/2009

 

 
O custo da má qualidade – mudança de valores número 1
Texto atualizado em 03 de Março de 2009 -

por Hermann Gonçalves Marx *
 
 

O que têm em comum?

- uma senhora que está grávida

- uma senhora que sofre de labirintite

- um senhor que tem dores na coluna

- alguém com enxaqueca

- uma senhora que sofre de osteoporose

- um motorista saudável de caminhão

- um motorista saudável de táxi

- um motoqueiro apressado

 

A resposta é simples. Nenhum deles consegue andar de carro ou moto nas ruas das cidades brasileiras, sem grande sofrimento e por vezes sem correr risco de morte ou de forte acidente.

 

Isso parece algum tipo de brincadeira, mas não é. Ao contrário, é muito sério. É sério porquanto aponta para a total falta de preocupação com o bem-estar do próximo.

 

Com o título “Nas ruas de SP, 72 buracos por hora”, o jornal O estado de São Paulo, de 28 de fevereiro 2009, aponta o que acontece nas ruas da cidade de São Paulo, mas que pode ser considerado padrão para todas as ruas, de todas as cidades do Brasil, assim como para as suas estradas. A prefeitura diz que esse número indica que houve melhora.

 

Por que temos tantos buracos nas ruas e estradas? A desculpa maior é que as chuvas estragam tudo. O que não é mentira, mas é um exagero.

 

Na maioria dos países também chove muito e há estradas e ruas em perfeito estado de conservação.

 

A segunda desculpa é que o trânsito é muito intenso e isso estraga o pavimento. O que também não é mentira, mas é fácil ver que ruas com trânsitos semelhantes têm situações diferentes. Basta sair da avenida (em mal estado), que dá acesso a rodovia dos imigrantes, e compará-la com a própria estrada para verificar a brutal diferença, mesmo sabendo que não há qualquer diferença de volume de tráfego ou peso das cargas.

 

O peso das cargas é trazido como uma terceira culpada pelos buracos que aparecem diariamente. É bem provável que isso acontece com grande frequência, por falta de capacidade das autoridades em punir severamente os infratores dando exemplo a todos.

 

Como podem as ruas e estradas da Alemanha ou da Itália, ou ainda no México, ou na Argentina, com todo o tráfego que por elas passa, com neve no inverno, calor alto no verão, chuvas e períodos de seca não chegarem nem perto do número de buracos que nos temos por aqui?

 

A resposta é simples. O meio em que construímos nossas ruas é tecnicamente de baixa qualidade. O material que é usado para confeccioná-las é de baixa qualidade. A forma como são trabalhados os materiais é de baixa qualidade. Os buracos são cobertos como remendos de roupa velha, sem qualquer preocupação com a qualidade. Não há uma única rua que se possa dizer ser plana ou sem calombos. Não há um só ex-buraco que não vire uma pequena elevação. Não há qualquer buraco que não venha a ter, em curto espaço de tempo, um buraco vizinho. Não há buraco, por mais importante que seja, não tenha que esperar a fila dos consertos.

 

Como consequência, nossos carros sofrem maior desgaste, forçando-nos a gastar mais dinheiro do que deveríamos para consertá-los. O trânsito piora porque não é possível desenvolver uma velocidade maior por conta dos buracos ou das elevações, após conserto.

 

Apenas como curiosidade. Estava um dia andando no centro da cidade de Dusseldorf, na Alemanha, quando vi um carro de polícia parado, com todas as luzes acessas para indicar que ali havia nascido um buraco. Isso é ter preocupação com o bem-estar dos outros e não apenas consertar mais um buraco enquanto nascem dois outros.

 

Chego a pensar que os buracos aqui são feitos pela oposição política. E como oposição sempre existe, os buracos assim continuarão a existir.

 

Quanto combustível nós desperdiçamos em função dos buracos? Quanto atrasam as nossas mercadorias em função dos buracos? Qual o custo logístico adicional que sofremos em razão do tempo a mais gasto por conta dos buracos ou dos calombos, assim como pelos custos de maiores manutenções dos veículos?

 

Acho que para ser lógico, os governos estaduais e municipais deveriam não cobrar mais o IPVA com a chancela de que é o imposto que permite rodar com os veículos, mas sim o IPCB, que seria o Imposto de Permissão para Cair nos Buracos.

 

Agora que os governos começam a arrecadar menos devido a crise internacional e nacional, programas de segunda linha, como tapar buracos fica relegado a segundo plano. Não há como tampar o buraco da falta de grana.

 

Se ao invés disso, tivessem tanto o governo como as empresas construído ruas corretamente, planejado esse trabalho adequadamente, provavelmente teríamos menos ruas asfaltadas, o que acho duvidoso, mas aquelas que o fossem estriam em bom estado.

 

O que falta é qualidade em tudo.

 

Muitos acham que baixando a qualidade ganham mais, e isso é uma verdade, mas e o custo dos outros milhares que vão ter de suportar a baixa qualidade?

 

É preciso se pensar em mudar os valores. Nada de remendo de valores, mas sim algo profundo.

 
 
 
 
 
 
 
O custo da má qualidade (2)

Texto publicado em 10 de Março de 2009 -


por Hermann Gonçalves Marx *
 
 

Nos últimos meses, tenho tido a oportunidade e o privilégio de conversar com muitos médicos de diversas especialidades. Digo privilégio porque me agrada sempre estar a par de como andam as coisas na economia e na administração em todos os setores. Particularmente, acho que houve uma evolução muito grande na administração de hospitais particulares, nas grandes cidades. Claro que há uma parte de show de marketing nas entradas suntuosas, nos bares e restaurantes que agora se encontram nos hospitais, ou nos pianos e lagos nos laboratórios. Mas, convenhamos que mesmo sendo um exagero, é agradável e, principalmente para aqueles que estão indo a esses lugares porque estão necessitando dos seus serviços, tudo isso minimiza o receio.

 

* O custo da má qualidade (1)

 

Por outro lado, as administrações dos hospitais públicos ou semipúblicos, isto é, aqueles que são administrados por entidades privadas mas sob orçamento público, ainda deixam muito a desejar.

 

Uma coisa que sempre me intrigou no atendimento público de saúde é o enorme contingente que aflui, diariamente, aos hospitais e clínicas nas nossas cidades. Comparo com outros países desenvolvidos e fico ainda mais perplexo.

 

No Canadá, há menos aparelhos para realização de ultrasonografia computadorizada do que em São Paulo, me dizia um dos médicos que encontrei. Porém, aqui demora-se mais para conseguir uma vaga para exame. Um motivo, seguramente forte, é que nossa população é mais mal tratada, desde recém-nascido. Portanto, apresenta mais problemas de saúde do que os canadenses. Outro motivo, porém comprovado, é que os médicos não atendem devidamente e corretamente os pacientes.

 

Não que esses médicos não queiram ou não saibam atender corretamente. É que eles são forçados a trabalhar com baixa qualidade. Explico: há uma busca por produtividade empresarial no setor médico hospitalar que é incompatível quer com o produto=doença, quer com o cliente=paciente.

 

É imposto aos médicos da saúde pública que atendam quatro ou seis ou mais pacientes por hora, como regra máxima. Por que? Para garantir que a receita total, isto é, a quantidade de pacientes vezes o valor reembolsado aos hospitais pelos governos seja suficiente para pagar aos médicos os seus salários. E, convenhamos, médicos, hoje em dia, não ganham salários condizentes com suas responsabilidades, dedicação e riscos. Há médicos que prestam concursos de fiscal do governo porque ganharão o dobro.

 

Não é só nos hospitais públicos o problema. Também em clínicas e hospitais particulares que atendem aos convênios, a questão da quantidade de atendimento por hora se repete. Há especialidades médicas que não poderiam, ou não deveriam, atender um paciente em 15 minutos ou menos. Mal dá para perguntar o que o paciente sente. O médico faz o possível para não errar, mas nem sempre dá para garantir a melhor orientação ao paciente.

 

Consequência lógica. O paciente procura outro médico e a história se repete. Novamente uma falta de consideração, uma falta de respeito para com o outro, para com o cidadão.

 

Ganhar produtividade não é fazer mais rápido. É sim fazer corretamente no menor tempo, no tempo correto, para evitar aquilo que nas indústrias chamam de retrabalho, que é, este sim, um custo jogado fora, perda da lucratividade. Mas não somente na área clínica tem-se essa dificuldade. Também na área cirúrgica. Os médicos são forçados a fazer apenas o número de cirurgias adequado ao administrador ou ao convênio.

 

Pior do que isso, os médicos são obrigados a trabalhar com material de segunda categoria, em muitos casos. Invariavelmente os pacientes retornam num prazo curto, e nova cirurgia corretiva precisa ser realizada. Sofrem os médicos e sofrem os pacientes.

 

Na busca de lucratividade sem coerência, a qualidade fica em segundo lugar. Quanto dinheiro o País joga fora pelo custo da má qualidade na administração médica? Quanto dinheiro as empresas gastam, pagando seus funcionários que procuram ajuda médica e se ausentam do serviço? Quanto dinheiro esse povo doente gasta para se deslocar até os postos de saúde, ou deixam de ganhar por que não estão trabalhando?

 

Quanto poderia ser mais eficaz os procedimentos médicos se estes dispusessem de mais recursos para investimentos em equipamentos e salas e macas?

 

O dinheiro do retrabalhado é lixo, e lixo polui. É preciso coragem para uma mudança radical. Nada adianta um ministro ou um secretário de governo vir a público dizer que vai contratar mais médicos porque há muitos doentes num específico hospital flagrado pela mídia televisiva.

 

É preciso mudar radicalmente. Nada de remendos ou de esparadrapos.

 

 


* * Hermann Gonçalves Marx possui graduação em Engenharia Mecânica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1972), especialização em economia industrial pela Universidade Técnica de Aachen (1976), mestrado em Sistemas e Pesquisa Operacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1974) e doutorado em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (2005). Atualmente é professor convidado da FIA-USP e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Tem grande experiência na área de Administração Empresarial. Atuando principalmente nos seguintes temas: desenvolvimento endógeno, política industrial, sociedade empresarial, administração pública e economia pública.


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