Escolas Médicas do Brasil

O MEC e suas mudanças

 15/05/2009

 

O MEC e suas mudanças

Publicado em 15/05/2009 |             Renato Ribas Vaz

 

Dois assuntos têm chamado a atenção das pessoas envolvidas na educação dos jovens: o primeiro deles refere-se à pretensa mudança do modelo de vestibular; o segundo, à mudança do currículo do ensino médio. Em relação ao primeiro, fazemos aqui algumas considerações.

Todos sabemos que, desde que haja um maior número de interessados em relação ao número de vagas, uma forma de seleção se faz necessária. Assim também é, por exemplo, na residência médica para os formandos em Medicina; assim é nos concursos públicos para o candidato se habilitar a ser funcionário do Banco Central; da Magistratura; da Polícia Rodoviária Federal etc.

E para o acesso à universidade não é diferente. Parece, não se sabe bem a razão, que para os pedagogos a palavra “vestibular” é pejorativa. Mas é fato que ano sim ano não, fala-se em acabar com o vestibular. Claro que para pessoas de bom-senso não se pode admitir acabar com o processo de seleção, a não ser que todos passem a aceitar ideias esdrúxulas como aquela que propõe sortear as vagas para os diversos interessados.

Mas voltando à realidade, aqueles que têm acompanhado o vestibular nos últimos 30 anos, observam que este processo seletivo tem sido continuamente aperfeiçoado. As provas foram se tornando mais contextualizadas, cobrando cada vez mais raciocínio, capacidade de análise e síntese, e menos decoreba.

Hoje, quando alguns pretensos entendidos em educação querem mudar o vestibular sob o pretexto de que ele é ultrapassado, que só cobra decorebas e que não atende ao interesse de alunos, fico perplexo. Na realidade, ou estas pessoas não sabem o que estão falando ou essão querendo mudar um modelo que era utilizado há 30 anos e que hoje simplesmente não existe mais. Ainda para os céticos, peço que analisem as provas da Fuvest, da Unicamp e de muitas outras instituições dos últimos anos para observar a sua grande mudança. Para os educadores que tenham talvez dificuldade em analisar provas de Física, Matemática, Química ou Biologia, para identificar a sua evolução, sugiro que analisem as provas de Português, onde exista a leitura. Nesta, há hoje tiras de humor para serem analisadas, gráficos para serem interpretados, desenhos e mapas para serem entendidos, além de muitas outras atividades interessantíssimas nas questões de Redação.

Dentro dessas mudanças, os materiais didáticos também evoluíram e, no bojo do seu conteúdo, contemplam conteúdos explicativos, contextualizados, com visual atraente para motivar o estudo dos alunos.

Diz-se que os conteúdos programáticos existentes nos livros são extensos e desnecessários. Na verdade, o que eles contêm são conteúdos que o jovem deve dominar para, no futuro, ser um bom universitário. São também esses conteúdos que os vestibulares das instituições de nível superior de maior prestígio cobram. Existem obviamente vestibulares de grande concorrência e outros em que a concorrência praticamente não existe. É lógico que o conteúdo cobrado, nestas situações diferentes, nunca deveria ser o mesmo. Querer, portanto, unificar a prova, tornando-a idêntica para qualquer vestibular, parece proposta de quem não conhece o assunto; se mesmo assim, o MEC insistisse para que houvesse mudanças no vestibular porque isso traria, segundo ele, vantagens aos alunos a forma com que as mudanças seriam propostas, deveria ocorrer de maneira diferente da que está sendo proposta.

A ideia deveria vir de forma completa, explicitando itens, tais como: conteúdos programáticos com definição da profundidade em que deveriam ser ministrados, de que tipo de questões, da quantidade de questões, das datas que seriam mais convenientes etc. Desse modo, os interessados, alunos, escolas, instituições superiores, teriam tempo de analisar a proposta e propor sugestões em tempo hábil, e não como hoje está sendo imposto.

Aqueles que querem tanto a mudança deveriam perguntar aos atuais vestibulandos se eles gostariam de que houvesse as mudanças tão comentadas; iriam se surpreender com um sonoro não. Hoje, eles estão sendo atrapalhados nos seus estudos com mudanças extemporâneas e, diga-se, ainda que poucos, para não dizer ninguém está interessado em conseguir uma vaga numa Universidade a 3 mil quilômetros de sua casa. Aqueles que estão propondo as mudanças devem pensar melhor para não prejudicar os interessados maiores, que são os estudantes.


Renato Ribas Vaz é ex-professor da UFPR, ex-professor da PUCPR e diretor de escolas.


TAGS