Escolas Médicas do Brasil

Dia do Médico - Discurso de Déborah Pimentel - Proferido na Câmara Municipal de Aracaju

 18/10/2009

                                 

 

 

DISCURSO PROFERIDO POR DÉBORAH PIMENTEL

NA CÂMARA MUNICIPAL DE ARACAJU,

  DIA 15 de OUTUBRO DE 2009

EM COMEMORAÇÃO AO DIA DO MÉDICO

 

Exmo.  Presidente da Câmara Municipal de Aracaju: vereador Emmanuel da Silva Nascimento.

Exmo. Vereador, em nome do qual cumprimento todos os demais membros desta casa, o nobre colega Dr. Emerson Ferreira da Costa, cuja iniciativa ensejou a realização deste evento na casa do povo.

Ilmos.  Confrades da Academia Sergipana de Medicina, o Presidente do Conselho Regional de Medicina, Dr. Paulo Amado, e o Presidente da Sociedade Médica de Sergipe, Dr. Petrônio Andrade Gomes.

Ilmo. Presidente do Sindicato dos Médicos de Sergipe, nosso colega, grande guerreiro e baluarte nas defesas da categoria médica, Dr. José Menezes dos Santos.

Caríssimos colegas

Senhoras e senhores

Queridos amigos

Neste 15 de outubro, dia do professor, categoria tão sofrida e à qual também pertenço, parece natural que estejamos na casa do povo, homenageando simultaneamente estes profissionais, professores e médicos pelo tanto que eles representam, educação e saúde, pilares essenciais para uma nação.

A Igreja consagrou o dia 18 de outubro a São Lucas, o evangelista, que conviveu com os doze apóstolos e que segundo escritos e documentos deixados pelo Apóstolo Paulo era conhecido como o amado médico pela sua dedicação ao cuidado dos enfermos. Era pintor, músico e historiador e o mais culto dos quatro evangelistas do novo testamento, autor do Evangelho de São Lucas dos Actos dos Apóstolos - o terceiro e quinto livros do Novo Testamento.

Utilizava uma linguagem mais elaborada revelando um excelente domínio do idioma grego e como um dos discípulos intelectuais de Jesus transmitia às pessoas o verdadeiro significado do amor ao próximo, da solidariedade e da compaixão.

A tradição de ter Lucas como o patrono dos médicos se iniciou por volta do século XV e a data é comemorada no Brasil, Portugal, França, Espanha, Itália, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Argentina, Canadá e Estados Unidos.

Pouco se sabe a respeito da sua vida. Ele é mencionado somente três vezes pelo seu nome, por outros, na Santa Escritura. Como todos os médicos, Lucas não era exceção, não tinha vida própria, pois ela era dedicada em cuidar dos doentes. Lucas, um Sírio de Antioquia, solteiro e sem filhos, morreu com 84 anos de idade.

 

Na atualidade os médicos vivem para o trabalho, tal qual São Lucas, labutam cada vez mais, se permitem cada vez menos ao lazer e estão sempre com a sensação de que seu tempo é insuficiente para honrar todos os seus compromissos, quer seja com o trabalho, quer seja com a família, gerando angústia, frustração e depressão.

 

Sim, caros senhores, médicos estão deprimindo. Eles adoecem e vivem 10 anos menos que a população em geral, como resultado das suas escolhas profissionais.

 

Dados revelam que o Brasil possui cerca de quatro milhões de pessoas trabalhando na área de saúde, quer no setor público quer no setor privado, e segundo o Conselho Federal de Medicina, dentro deste contingente, temos em 2009, 511.873 médicos inscritos e 344.034 médicos atuantes.

 

O Brasil forma um exército de quase 20.000 novos jovens imbuidos pelo sonho do jaleco branco, o sonho bom de Lucas. São oriundos de 179 cursos espalhados pelo país reconhecidos pelo MEC em faculdades que nem sempre possuem bom conceito.

É hora de conclamarmos a sociedade para uma reflexão acerca da formação médica, do valor de um médico, do tipo de vida que abraça e a realidade agonizante do mercado de trabalho que o espera.

Há uma falha estrutural na preparação deste médico, estimulando-o a uma dissociação e dicotomia, pois o ensinam a serem bons técnicos, a cuidar bem dos seus pacientes, mas esquecem de estimular o auto cuidado e não põem no seu currículo disciplinas da área de humanas, que passem mais de perto pela sociologia, antropologia, psicologia e até mesmo administração.

Médicos precisam aprender a lidar com a realidade, com o seu próprio cotidiano, precisam se valorizar e fazer um melhor gerenciamento de suas vidas e carreiras profissionais, sob pena de morrer como São Lucas, sozinho, isolado e pobre. Não é só de louros que vive um homem. Precisa de pão e vinho.

Tudo bem, a obra de Lucas o tornou imortal, e ter este reconhecimento eterno tem um preço.

 

Mas, que preço é esse que se paga, se os resultados do seu dedicado trabalho não faz  o médico alcançar nem reconhecimento dos gestores, nem gratidão dos pacientes e nem tampouco honorários dignos?

 

Honorários é uma palavra do latim que significa pagamentos recebidos com honra  Será que o valor que  médicos recebem hoje, a título de remuneração, para salvar vidas, curar doenças, sedar dores, dar conforto, podem ser chamados de honorários dignos ou simplesmente honorários?

 

A Medicina e sua prática banalizaram-se, nem o ato médico conseguimos efetivamente aprovar, são os outros que ditam o que podemos ou não fazer. Socializamos até o nosso ofício, porém com um agravante, as responsabilidades permanecem como ônus exclusivamente nosso.

 

Aliás, se o ônus fosse proporcional à sua remuneração, médicos seriam ricos, entretanto a sua capacidade de produção de profissionais mal remunerados tende a reduzir e por conta disso, e, possivelmente, como conseqüência direta do desestímulo pela baixa recompensa financeira, aliado ao cansaço por ter múltiplas jornadas de trabalho, o número de processos de responsabilidade civil contra os médicos, aumentou significativamente.

 

O Conselho Regional de Medicina de Sergipe, em um ano, registrou o número recorde de 52 denúncias com 14 processos éticos profissionais instaurados e cinco condenações. As denúncias mais frequentes são contra obstetras, cirurgiões plásticos e médicos do trabalho, estes últimos, quando os pacientes têm possíveis benefícios negados.

 

O cruel é que a população em geral, não é sensível às dificuldades do exercício profissional desta categoria que lida com a saúde e desconhece as restrições feitas à classe, as mudanças de regime de trabalho, as imposições no surgimento das Fundações, por exemplo, ou ainda, pelos convênios e planos de saúde abusivos. que vivem ameaçando os médicos com o descredenciamento unilateral e  glosas de trabalhos executados, não justificáveis.

 

Parabéns ao Dr. Emerson, por ter trazido esta questão para reflexão mais profunda, nesta nobre casa, pois todos parecem ignorar as mazelas pelas quais vivem um médico: políticos inclusive.

 

Para que haja uma maior atenção aos médicos, é preciso consciência e visibilidade das reais necessidades desses profissionais, para que eles próprios tenham condições de perceber sua força, sua importância social, familiar, cultural, econômica e política, desde que eles, próprios percebam da importância de se cuidarem para melhor servir à sua comunidade a si próprio e à sua família, vivendo com saúde, qualidade de vida e dignidade.

Queres ser médico, meu filho?

 Esta é a aspiração de uma alma generosa, de um espírito ávido de ciência.

Tens pensado bem no que há de ser a tua vida?

 

Este postulado é proposto como sendo de Esculápio, deus romano da Medicina e da cura, herdado da mitologia grega. É na verdade uma admoestação aos médicos que não se cuidam.

Tens pensado bem no que há de ser a tua vida?

 

Médico precisa aprender a dizer não. Médico tem ofício sacerdotal, no sentido latu sensu, ou seja oficio nobre, com práticas ligadas à preceitos éticos, que implicam em uma atitude respeitosa para com o seu paciente e familiares, confidencialidade e sigilo,  mas não é sacerdote no sentido stricto sensu. Não fez voto de pobreza.

 

Se aprendermos à dizer não à aqueles que exploram a nossa mão de obra barata teremos condições de brindar a vida mais vezes e por mais tempo.

 

Este é um alerta final que faço aos meus colegas e em especial aos meus alunos de Medicina, na disciplina Ética Médica, jovens sonhadores. Se estudarem bastante, se forem aplicados na área de expertise que escolherem, se forem responsáveis, elegantes e humanos, ou seja se respeitarem o Código de Ética para pautarem a sua prática, suas relações com seus pacientes, seus pares e colegas de equipe, certamente farão excelente profilaxia de erros médicos, mal entendidos, má comunicação e denúncias vazias por mal relacionamento e alcançarão mais facilmente os louros de São Lucas.

 

 Entretanto, devem também respeitar o Código de Ética no seu aspecto mais simples, quando diz é vedado ao médico receber remuneração pela prestação de serviços profissionais a preços vis ou extorsivos, inclusive de convênios.

 

Médicos precisam ter compromisso não só com a população a que eles servem, mas também com eles próprios, em aspectos que dizem respeito ao estímulo do exercício da profissão que escolheram, com oportunidades de aperfeiçoamento contínuo e sendo capazes de ter uma percepção sobre os seus limites, para que possam continuar a exercer suas funções de cuidadores com responsabilidade para com eles próprios e para com seus pacientes.

 

Mas, há o que se comemorar sim, professores e médicos têm orgulho do que fazem, gostam do que fazem e têm uma importante missão.

 

Lembra-te,

Antes que cheguem os maus dias,

e se rompa o fio de prata,

e se despedace o copo de ouro,

e se quebre o cântaro junto à fonte,

e se desfaça a roda junto ao poço...

 

Tempus fugit – o tempo passa...

 

Vai, portanto, come a tua comida e alegra-te com ela,

bebe o teu vinho com um coração feliz.

Veste-te sempre de branco

E que não falte óleo perfumado nos teus cabelos.

Goza a vida com quem amas todos os dias da tua vida...

Pois Deus já aceitou o que fizeste...

 

Carpe diem

Aproveitem o seu dia!

 

Eclesiastes 12, 1-8;  9.7

 

MUITO OBRIGADA


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