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Bolsa Ditadura - por Dante Mendonça

 10/04/2008

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Bolsa Ditadura

Dante Mendonça [10/04/2008]


Não sei quando, Millôr Fernandes desenhou um conselho de pai para filho: “Fique certo de uma coisa, meu filho: se você mantiver seus princípios com firmeza, um dia lhe oferecerão excelentes condições de abdicar deles”. O gênio de Millôr é agora lembrado bem a propósito da “Bolsa Ditadura” com que foram agraciados os cartunistas Ziraldo e Jaguar.

O sempre bravo Millôr Fernandes é ainda autor da pergunta que não quer calar no fundo da alma dos tantos brasileiros que sempre foram maluquinhos pelo menino de Caratinga: “Afinal, se combatia a ditadura ou era investimento a longo prazo?”

A pergunta de Millôr deve estar latejando na consciência de Ziraldo e Jaguar. E bastante.

Os três sempre foram amigos próximos e com muitos amigos comuns que agora se dizem perplexos com a conivência de tantos intelectuais com a “Bolsa Ditadura”. Carlos Heitor Cony é outro deles, que nos combativos tempos do Pasquim foi acusado pelo próprio Ziraldo de “Conyvente” com o regime.

Dos amigos de Ziraldo e Jaguar, é preciso registrar o desabafo de Cora Rónai inseparável amiga de Millôr Fernandes: “Fiquei muito aliviada ao saber que Jaguar e Ziraldo ainda podem recorrer da decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça que lhes deu, respectivamente, R$ 1.027.383,29 e R$ 1.253.000,24, mais pensão mensal de R$ 4.375,88. Devem pedir mais, muito mais. Cada um vende a alma pelo que entende, mas eu, pessoalmente, acho que ganharam pouco para jogar no lixo duas biografias até aqui tão bacanas”.

Para entender o que levou Ziraldo, Jaguar, Carlos Heitor Cony, Augusto Boal, Luiz Edgard de Andrade, Tárik de Souza e outros a “abdicar de seus princípios” e “jogar ao lixo suas biografias”, o escritor Toninho Vaz escreve de Santa Tereza, paraíso no alto do Rio de Janeiro onde outros amigos de Jaguar e Ziraldo perambulam inconformados: “Se analisados isoladamente, alguns casos são realmente escabrosos e revelam o oportunismo dos pensionistas. Tárik de Souza, por exemplo, nunca deixou de trabalhar no JB (Jornal do Brasil) durante a ditadura; Ziraldo vendeu o personagem Jeremias, o Bom, para a loteria federal, na época do regime militar; Cony, braço direito de Adolfo Bloch durante décadas, foi menos perseguido do que milhares de jornalistas brasileiros que não puderam exercer sua profissão. Ou seja, na hora da bravata, você se identifica como um cidadão de esquerda envolvido em luta contra a ditadura militar e o faz espontaneamente “por uma questão de honra”. Agora, quando tudo se mistura numa grande geléia geral, sem esquerda ou direita para atrapalhar, sua antiga posição política passa a ter um preço. Um preço para a sua ideologia”.

Bem lembrado pelo curitibano Toninho Vaz, Ziraldo vendeu Jeremias, o Bom, para o regime militar. Entretanto, em defesa do agora “velhinho maluquinho” é preciso lembrar também o depoimento de Karlos Rischbieter, na sua recente autobiografia Fragmentos da Memória, onde o ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo do general Geisel assim registrou: “O boneco de publicidade da Loteria Esportivo era Jeremias, o Bom, personagem criado por Ziraldo. Veio um aviso do Ministro Falcão para não renovar o contrato. Disse que só obedeceria se a ordem viesse por escrito. Veio!”

Aqui no Paraná, jornalistas e escritores prejudicados profissionalmente pela ditadura poderiam reivindicar a “Bolsa Ditadura” - e que eu saiba assim não agiram. Entre eles, vêm à memória Walmor Marcelino, Fábio Campana, Benedito Pires, Milton Ivan Heller e a também jornalista Teresa Urban que declinou da “Bolsa Ditadura”, mesmo hoje sem um polpudo salário ou alguma aposentadoria.

Como filhotes do Pasquim entre eles o cartunista Solda, que se declara admirador incondicional de Ziraldo -, nos sentimos ainda mais estarrecidos, com a cara do filho desenhado por Millôr, que escuta do pai: “Fique certo de uma coisa, meu filho: se você mantiver seus princípios com firmeza, um dia lhe oferecerão excelentes condições de abdicar deles”.


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