Escolas Médicas do Brasil

PORTUGAL: A Saúde sem médicos

 30/06/2008

LISBOA   -   PORTUGAL
COLUNA VERTICAL
A saúde sem médicos                                    DESTAK.PT
02 | 07 | 2008   09.11H

O sistema público de saúde está sem médicos. Os médicos espanhóis - que durante anos asseguraram a rede de cuidados no interior e nas periferias - encetaram a operação de regresso, seduzidos legitimamente pelos ordenados que hoje lhe são oferecidos no seu País. Por outro lado, a emergente proliferação dos hospitais privados, com outra organização e melhores e mais sofisticados equipamentos, proporcionando aos profissionais a otimização da sua atividade e o ganho de maiores proventos, desmuniciou os grandes hospitais públicos centrais de parte dos seus corpos clínicos.

Há quem justifique tudo isto pela mudança de paradigma. Não acreditamos no palavrão, já cansado de tanto uso. Para nós, tudo isto era - ou deveria ser - previsível. Durante anos a fio as Faculdades de Medicina transformaram-se em escolas inacessíveis, impondo médias dignas de gênios e excludentes de qualquer aluno brioso, capaz, seguro, mas um pouco abaixo desse limiar da genialidade exigido. Ora, nem há gênios com 17 anos, nem há sistema de saúde que se governe sem um campo de recrutamento vasto que assegure a satisfação das necessidades e a concorrência entre profissionais. Esta é uma verdade de La Palisse.

Aqui chegados, sem Serviço Nacional de Saúde que garanta a universalidade no acesso aos cuidados de saúde constitucionalmente imposta e, sobretudo, sem médicos, as nossas esperanças confinam-se ao contingente dos imigrantes, desejando que cheguem alguns de estetoscópio ao peito, provindos do Leste ou do Oeste, do Norte ou do Sul. Seria curioso saber, no entanto, se estes médicos imigrantes foram sujeitos ao rigor dos numerus clausus para a admissão aos cursos respectivos. Seguramente que não.

Esta medida de condicionamento no acesso aos cursos de medicina que criminosamente afastou gerações de jovens portugueses do seu sonho e, sobretudo, da sua vocação é singularidade lusa. A qual, inacreditavelmente, teima em persistir.
José Luís Seixas


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